Rosa Pires

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Blog de Rosa Pires (conteúdos editoriais)

Grândola é um passo de marcha

Grândola é um passo de marcha

Uma voz que não se cala e ao alto se levanta

E já não passa de moda como alguns querem crer

Grândola é um grito novo de revolta

De nova ânsia de liberdade e de pão.

Grândola há de sempre voltar a mover-se

Quando a um povo já não estendem a mão.

Grândola é o hino dos oprimidos,

O hino da democracia

Sem falsos pudores ou hipocrisia,

E se há quem já não lhe ache graça

E até quem dela duvide,

E outros motivos lhe encobrem a carapaça

É porque nunca a cantaram em criança.

Grândola é um passo de marcha

Que em sintonia o povo t

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Crónica de um funcionário público para o dia do Entrudo

Na calçada e de sapatos quase gastos caminha

leva vestido os trapos para a mascarada

num dos bolsos o resto do pão duro do outro dia

e no outro a memória da réstia de uma mesada.

Da família

quase nem se lembra

desde que o obrigaram à mobilidade

que já nem sabe se está no norte ou no sul

ou se afinal a terra é plana.

Lembra-se só de algo que ouviu:

o tipo que nos governa foi um grande amigo das farras

que só aos trinta e poucos anos se formou

por isso a frase “alunos não sejam piegas”

ou então arrependido dos gestos, em frases mud

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Reminiscências em viagem

O cheiro que foi perdendo, diziam-lhe os médicos, também lhe foi tirando o sabor que, por vezes tudo que comia, lhe sabia ao mesmo.

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Uma pequena lucidez

Perdera-lhe já a conta de quantas vezes a assaltara o gesto de as destruir. Mas, uma pequena lucidez ou talvez um lampejo de saudade futura, surgia-lhe nas mãos, sempre que esse ser diabólico e invejoso que se nos apodera por vezes da mente, fazendo por vontade dele e não nossa actos inconscientes, de que nos arrependemos depois mais tarde mas já sem volta a dar, para que o passado regresse ao ponto onde ainda seria possível remedia-lo.

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O rebentar das águas

Há gente deste calibre que não sabe o mal que me faz.

A toda a hora sou abalroada,

logo eu que fugi a esses pensamentos piegas e retrógrados

quase ao desbarato roubados,

à minha serena e paciente figura,

que aparentando uma ausência desmesurada

lhes deve parecer uma cançoneta feliz.

Deixem-me em paz…

Não fomentem a minha loucura

a sorrir sempre que me falam

da minha terra quase campeã!

Mas que mal lhes terei feito eu?

Para merecer tal desmesura…

Ai as tíbias… (esse bolo a transbordar de creme e manteiga)

diz-me uma, todos os natais e Páscoas…

não

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A recompensa

Nas famílias rurais e semi-urbanas do norte, e talvez um pouco por todo o continente, o “tinto”, fazendo parte das principais refeições, os pais insistiam que os filhos na década entre os anos sessenta e setenta o bebessem em modo de recompensa, pois se por altura da vindima velhos e novos, todos ajudavam, nem que fosse na apanha dos bagos intactos das uvas caídos no chão.
E, dizem eles na actualidade, os dessa geração que beber qualquer bebida que contenha um acentuado nível de álcool antes de completarem os 18 anos, faz mal ao intelecto repercutindo-se nos resultados escolares dos seus pr

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Na Praça Pérola

O ruído vinha de longe. Primeiro como se de um som de mar se tratasse num fim de tarde a esbater-se suave na areia. Depois como um saxofone a soprar com mais força sobre os rochedos. Mais tarde, parecia-se com o rufar dos tambores ao despique nas festas dos santos populares a que se vão juntando aglomerados de gente como formigas, acotovelando-se para ver a banda passar e ninguém percebendo de onde surge tamanha multidão se as ruas no fim de tudo ficam silenciosas de novo não restando indícios que lembrem aqueles rostos voltados todos na mesma direcção. Uns com uma expressão de puro prazer.

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Adágio

Vai gaivota da saudade.

Não chores nesse som de violino

que o amor é tão grande

e o mar de imensidão o acolhe.

Repara que à Alma um manto a cobre

quando nas ondas prisioneiro o levam

e nem sempre na maré o trazem.

Na areia destroços ficam

é nosso coração criança que chora.

E o manto de espuma

é mão que o afaga

na solidão

da nossa Alma destroçada!

Vai gaivota

nesse voo rasgado de encontro ao sol

que tudo é vão e nada fica.

Vai gaivota, vai

e não chores nesse som de violino

nos sulcos profundos da desventura

nessa dor atroz e mo

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Saudades

Não do que fomos,

nem queremos ser

neste mundo de adultos adulterados.

Saudades dos risos perfeitos,

das rosas

e dos pés descalços,

dos meninos soltos e envergonhados.

Mas lá,

onde quase tudo era permitido

e quase tudo se perdoava,

na idade da inocência

a espreitar sorrateira

com olhos de criança,

a mentira

eram histórias,

sonhos,

por vezes

invenções

ainda sem propósito

e aninhados entre os braços

que se abriam ao vento

sem medos

quando éramos pequenos!

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Há vozes em melodia

Há vozes em melodia a emoldurarem-no.

Elevam-se. E agarram-no. Fecha os olhos e deixa que o levem. Só ele não sabe permanecer e viaja… E não há freios que o sustentem!

A floresta é espinhosa e dilacera quem nela ousar entrar…

Contrapondo-se à ilusão que o desejo é vão e os cânticos entontecem a dor adormece e embriaga a emoção.

Mas mesmo que o consiga nada o desviaria da sua opção!

E quando do vento dele se acaricia só na brisa sem grandes rumores para que nem nela se sinta obrigado à recordação vai e deixar-se-ia ir todavia que a tolerância é a companhia e s

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