Fazer da universidade um palco (bandas estudantis)

Bandas estudantis

As faculdades e os institutos politécnicos são viveiros onde nascem os mais variados projectos musicais. E todos temos um amigo que pertence a um. As bandas com estudantes não são mais apoiadas porque ninguém dá apoios ou porque ninguém os sabe pedir?

Deolinda: A primeira banda de Ana Bacalhau nasceu na universidadeDeolinda: A primeira banda de Ana Bacalhau nasceu na universidadeFoi numa praxe académica que Mafalda Arnauth, então caloira de Veterinária, acedeu ao pedido para cantar um fado. O tema de Amália Rodrigues, Triste Sina, desbravou-lhe o caminho para uma promissora carreira nos palcos e para a edição de seis discos, sendo o mais recente Flor de Fado. Muitos são os artistas e bandas, nacionais e internacionais, que se desenvolveram num ambiente universitário, aprimorando os seus ímpetos criativos através de um intenso percurso estudantil.

Se Mafalda Arnauth assistiu ao traçar do seu destino numa praxe, a vocalista dos Deolinda, Ana Bacalhau, desencantou-o no ambiente descontraído do Bar Novo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL). Foi na véspera de mais um concerto e na «correria típica destes dias» que explicou como conheceu Dídio Pestana e Gonçalo Tocha, os músicos com quem viria a formar a sua primeira banda, os Lupanar: «Participava sempre que havia uma sessão de Karaoke e, além disso, pedia para cantar a capella uma música da Janis Joplin.» Havia também um núcleo de rádio para o qual contribuía com um programa de música semanal. É por isso que Ana Bacalhau acredita que o contexto universitário foi fundamental para o seu desenvolvimento artístico e para o a da banda: «Partilhávamos o interesse pela Língua Portuguesa, pela música, e achámos que nos poderíamos juntar e criar um grupo que trabalhasse diferentes linguagens musicais», afirma.

Começaram por ensaiar em casa de Dídio Pestana, mas durante o ano lectivo de 2000/2001 decidiram aumentar o número de músicos para sete. Desta forma, passaram a ocupar as salas de aula da FLUL com ensaios acústicos. Em 2002, os Lupanar continuaram a crescer e a Reitoria da Universidade de Lisboa, atenta às iniciativas de índole criativa, mostrou-se interessado na banda. O auge do início de carreira seria atingido com um espectáculo para cerca de 800 pessoas na Aula Magna da Universidade de Lisboa.

Ana Bacalhau diz que este concerto foi «crucial» para o desenvolvimento dos Lupanar. «Nunca poderíamos suportar sozinhos todos os custos financeiros, logísticos e humanos que fazer um espectáculo naquele espaço implica.» Apoio idêntico tiveram, em 2005, para a edição de autor do primeiro álbum da banda. Os Lupanar angariaram outros financiamentos, mas foi a associação de estudantes da FLUL a assegurar o material promocional, como postais e cartazes.

O papel das associações

Os Lupanar constituem um bom exemplo de como uma banda estudantil, com um ou mais membros a frequentarem o ensino superior, pode singrar nos circuitos comerciais da música optando, numa primeira etapa, pela divulgação académica e pelos apoios universitários. Surgem então as questões: como se procuram estes apoios e quem pode ajudar?

Para Pedro Barros, dirigente associativo da FLUL entre 1994 e 1997, não poderá ser uma AE a assumir o apadrinhamento das bandas, o que acabaria por resultar numa pré-definição estética dos grupos ou na criação de «boybands ou girlbands». No entanto, sublinha o papel fundamental da estrutura universitária para acolher projectos e iniciativas musicais. Nesse sentido, é essencial as bandas entregarem nas AE um «dossier de apresentação do grupo», onde deve constar uma maquete. «Acima de tudo, o que vai seduzir é o projecto musical», afirma. É importante também incluir «uma biografia dos músicos», na medida em que esses elementos podem «chamar à atenção», através, por exemplo, de uma colaboração com um artista de renome ou o trabalho demonstrado numa área artística diferente.

Os membros da banda devem assim «seleccionar os elementos mais fortes», sabendo que serão estes a despertar a curiosidade das associações de estudants. «Não basta dizer que a música é interessante», diz Pedro Barros. Outros aspectos que fazem a diferença são «a linha gráfica da maquete e um bom texto de apresentação da banda». E os contactos com a imprensa. As bandas devem também estar a par «do fecho das agendas dos jornais para anunciar os concertos a tempo», para além de «fazerem um apanhado dos jornalistas que escrevem sobre música», tendo em conta as áreas de especialização de cada um. «Depois, é enviar os press-releases e as maquetes ao cuidado dessas pessoas», explica Pedro Barros.

Vice-presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e organizador de um torneio de bandas universitárias, Tiago Veríssimo acredita que é possível dar apoio a bandas que tenham um projecto bem estruturado, incluindo as autorizações necessárias, por parte do Conselho Directivo, para alugar um espaço da universidade para ensaios. Foi o que a associação de estudantes fez para a tuna, a quem foi atribuído uma sala num dos pavilhões da faculdade. Para este dirigente, a primeira acção que as bandas devem tomar é apresentar um projecto na associação de estudantes seguindo os critérios da «concisão e credibilidade». Assim, no portfólio da banda «devem constar dados simples, como o número de membros, há quanto tempo se juntaram, que instrumentos usam, descrevendo o tipo de música e a quem pode interessar, anexando também um historial de concertos». Tiago Veríssimo afirma já ter uma considerável experiência no contacto com músicos, mas num circuito comercial exterior à universidade. Conclui que, com uma abordagem informada por parte da banda, os responsáveis pelos espaços «ficam quase obrigados a aceitar os pedidos que forem feitos».

A atitude das bandas

Agora jornalista na Agência Lusa, Filipe Pedro colaborou activamente na revista estudantil Subcave, onde se empenhou na divulgação de bandas portuguesas em início de carreira. Recordando o caso dos Ornatos Violeta, «que viviam todos juntos quando se formaram», e dos Zen, «que surgiram de jam sessions ocasionais e de uma mescla de diferentes bandas», sublinha a importância do convívio universitário.

«É necessário criar uma teia de interesses e uma componente intelectual que seja comum aos membros da banda», afirma. No entanto, para obter apoios, as bandas devem «ter objectivos bem delineados» quando procuram a ajuda da sua universidade e «saberem que tipo de apoios precisam e o que pretendem conseguir através deles». «Para cada fase de desenvolvimento da banda corresponde um tipo de apoio diferente», lembra.

Mas nem todo o trabalho de promoção deve ser feito pelos músicos. Da sua experiência, Pedro Barros pode afirmar que «não há uma política de incentivo» por parte das entidades soberanas do meio universitário. Aquilo que há são «as festas do caloiro e semanas culturais.» Destaca a necessidade das próprias associações de estudantes «olharem para o que está à sua volta, saírem mais à noite e procurarem projectos interessantes que possam ser integrados em espectáculos organizados pelas faculdades». Considera «inacreditável» que, por exemplo, a Associação Académica da Universidade de Lisboa tenha convidado novamente Quim Barreiros para a festa do caloiro deste ano, quando há projectos mais pequenos mas de qualidade superior. «Pegar em coisas interessantes feitas pelos alunos das universidades» é o que propõe para uma melhoria da programação desses concertos. Ana Bacalhau completa a questão com um incentivo aos leitores: «Se não existir uma iniciativa clara das vossas associações de estudantes no sentido da promoção de acções culturais, que as proponham os músicos, as bandas, os fãs».

Todo o processo de obtenção de apoios pode revelar-se complicado, e por vezes até frustrante. Como Tiago Veríssimo explica, um dos factores negativos é o Orçamento de Estado, que torna quase impossível um maior investimento nas actividades culturais: «Não há dinheiro nem para o material necessário para as aulas». Hugo Barros, produtor freelancer e habitué na produção de concertos na Aula Magna da Universidade de Lisboa, completa o cenário menos propício: «Nas AE há um processo burocrático pesado, e as poucas pessoas que dela fazem parte têm de passar o tempo todo a tentar segurar a própria estrutura». No entanto, há todo um trabalho de promoção interna, incluindo a tarefa incansável que Pedro Barros denomina de «bater a todas as portas», que a banda deve desenvolver e que, tal como sucedeu com os Lupanar, pode abrir caminhos auspiciosos. E é de bom grado que Ana Bacalhau se lembra dos incentivos prestados pela FLUL aos Lupanar, que se revelaram «essenciais», «quer em termos logísticos, como em termos de promoção e do boca-a-boca». Revela-se então essencial uma vontade inabalável das bandas para se auto-promoverem, até porque alguns apoios são realmente possíveis. Filipe Pedro concorda que todo o processo de obtenção de apoios universitários «não é uma batalha fácil», mas que é fundamental as bandas «acreditarem» em si mesmas. E acrescenta: «Só assim é possível dar o salto».

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