Entrevista a B Fachada - Retrato de um músico enquanto estudante

Maus professores e alunos que não gostam de aprender. É um retrato pessimista aquele que B Fachada, um dos muitos nomes que saíram do catálogo da Flor Caveira, faz do Ensino Superior. E não se trata de um olhar exterior. O músico fala por experiência própria

É daqueles que não vê no curso superior um passaporte para uma profissão. O seu objectivo é outro: aprofundar conhecimentos nas suas áreas de interesse e ter aulas com os professores que admira. B Fachada não se preocupa, por isso, com os anos que pode vir a passar na universidade, e já lá vão muitos, comparando com a média actual. Primeiro no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa e agora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH), onde frequenta a licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas, Estudos Portugueses. Aprecia acima de tudo a dedicação, o método e a capacidade de trabalho. Os ingredientes que, de resto, também aplica na música, pois acredita mais na transpiração do que na inspiração. B Fachada, nascido em Cascais, em 1985, dedica todo o seu tempo a tocar ou a pensar nos seus projectos artísticos. E os primeiros resultados estão à vista, com a reinvenção da música popular portuguesa, «num folque(lore) muito erudito», entre a ironia e o indie, o trabalho sobre a linguagem e a performance enquanto cantautor. Depois da estreia, em 2008, com Viola Braguesa, lançou este ano o álbum Fim-de-Semana no Pónei Dourado. É um dos artistas do momento. E um bom conversador também. Sempre com o seu cigarro de enrolar entre os dedos, a marcar o ritmo das suas palavras.

Por que razão escolheste o curso de Literatura?
Estive em Física primeiro, no Instituto Superior Técnico, e só mudei para Literatura, já na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, passados dois anos e meio.

Foi uma mudança drástica.
Era o que fazia sentido. E devia ter ido para Literatura desde o início. Mas acabei por decidir só a meio. Escolhi a Universidade Nova de Lisboa por causa do [poeta e ensaísta] Alberto Pimenta.

Como foi a experiência de Física?
Curta, mas boa. Estar numa universidade a sério, que funciona bem, em que nunca se está mais de 10 minutos na fila para a secretaria, ter colegas que percebem do que se está a estudar, é algo que nunca se esquece. É uma experiência que se deve ter pelo menos uma vez na vida.

O que te interessou inicialmente na Física?
Segui Ciências [no secundário] e dentro dessa área a única coisa que fazia sentido para mim era Física, sobretudo a parte experimental e de laboratório. Era algo de que gostava muito. Na altura a minha perspectiva era estudar por estudar e, nesse sentido, fui para Física. A minha passagem pela universidade nunca teve em vista uma profissão. O mesmo se passa agora com a licenciatura em Literatura. Apenas quero passar uns anos a estudar e esticar esse período o mais possível.

É dessa forma que entendes a universidade, exclusivamente como um momento de formação pessoal?
Depende das universidades. No caso das Humanidades não há outra hipótese. Num mundo em crise, é evidente que as Artes, a Literatura e tudo o que tem a ver com Cultura sejam as primeiras áreas a ser cortadas, principalmente quando se verifica que a fauna que ocupa esses cursos é o lixo. São pessoas que não conseguiram fazer mais nada. Geralmente isso dá maus resultados.

Numa sociedade que preza o lucro fácil as Humanidades estão condenadas a essa marginalidade?
Temo bem que sim. Para contrariar essa tendência as universidades teriam de oferecer algum retorno à sociedade para se justificarem, a não ser que sejam privadas. Numa faculdade de Letras, por exemplo, esse retorno deveria passar por uma revista ou um jornal para o grande público e não para consumo interno. O que se passa é que essas publicações internas raramente têm qualidade para serem lidas internamente, muito menos no exterior. Há quem fique satisfeito com um artigo que tenha qualidade suficiente para ser lido pelos amigos do departamento. Da mesma forma, teria de haver uma hora por semana na RTP 2 para os alunos de Comunicação Social, ou temporadas gratuitas no CCB organizadas por alunos de música. Estas iniciativas têm de acontecer, senão o que é que se está a fazer? Se a assim não for, a universidade transforma-se cada vez mais numa extensão do liceu. E a diferença é cada vez maior entre as universidades de ciências, que estando paradas há 30 anos ainda estão muito bem, e as de Letras, que têm vindo a decair para um nível baixíssimo. Nas Humanidades, as pessoas praticamente não têm de se mexer para tirar um curso.

Falta dimensão nacional às universidades, um dinamismo que extravase os seus limites físicos?
Faltam, acima de tudo, alunos que a Universidade não se pode dar ao luxo de perder. Como aconteceu no passado. Pessoas que dêem cartas a nível cultural. De outra forma entramos num regime em que o professor ensina a matéria, o aluno estuda-a e depois passa de ano.

Como explicas esse comodismo?
Hoje em dia, o ano lectivo está divido em festas, não em épocas de estudo. A recepção ao caloiros, os finalistas, entre outras. É a lógica instituída. Depois acontecem coisas espantosas. Como é possível que, em Coimbra, uma cidade com poucas iniciativas culturais, haja tantos jovens a viver juntos e mesmo assim não conseguem fazer nada? Como é possível que a proximidade entre um estudante de artes, literatura, ciências, comunicação social produza tão pouco? Também não será em Lisboa que se vai conseguir isso, quando às quatro da tarde toda a gente apanha o comboio para ir para a sua casa.

Fala-se muito em Cambridge, mas ninguém aposta a sério na criação de um modelo semelhante. É esse o problema?
Sempre foi esse. Em Espanha, por exemplo, quase que se criavam esses espaços artificialmente. Fundaram-se escolas com determinados professores ao lado de vários alunos e assim nascia uma geração. Lorca, Dalí e Buñel foram companheiros de quarto, numa escola criada para fabricar uma geração. E resultou. É estranho que não se passe o mesmo aqui. Por outro lado, nem sempre os alunos gostam do que estão a estudar. Não se interessam.

Se por um passo de mágica fosses nomeado Reitor que medidas é que tomavas?
Já não há muito que um reitor possa fazer. Desde logo porque, em primeiro lugar, teria de haver uma autonomia muito grande. As universidades deveriam poder mandar embora todos os professores que foram contratados nos anos 80 para encher buracos e que correm o risco de se tornarem catedráticos. É algo que encontramos em todas as faculdades. Fazem falta bibliotecas com livros, o que, no caso das Humanidades, é uma doença.

Terias então de ser nomeado Ministro?
Para resolver o problema também era preciso que os alunos deixassem de se preocupar com os trajes e passassem a pensar neles próprios e nas suas profissões. Vivemos numa época em que já não existe uma noção de emprego. Emprego teve o meu pai, que fez sempre a mesma coisa ao longo da vida. Agora só podemos falar em ofício, que consegue desdobrar-se em vários empregos. Só quem tem um é que se safa. E o ofício dos estudantes é estudar, andar para a frente. É saber fazer uma investigação séria e não de liceu. Saber a diferença. Pensar. Ser criativo. Ter interesse no que se está a fazer. Em Humanidades quando não se tem isso é muito complicado.

Porquê?
Estuda-se literatura para aumentar o gozo que se tem a ler. Mas se não se gosta de ler… O mesmo se passa em outras áreas. Nos cursos de comunicação social. Supostamente devia-se ler jornais ou querer subir o nível do jornalismo, uma área que está em crise, com tanto para explorar. O que não falta em Portugal é espaço para um bom jornal, pois não há nenhum. Mas não se vê esse primor, apenas o da maquilhagem para a televisão. Depois, pegamos no caderno de Economia do El País e sentimos que está mais bem escrito do que os suplementos culturais portugueses.

O cenário que descreves fez de ti activista. És aluno de manifestações?
Não. Sou completamente contra as manifestações colectivas dos universitários.

Completamente contra?
Nunca lhes encontro sentido. Caso contrário talvez participasse. Foi o que aconteceu em alguns momentos, sobretudo no Técnico, mas aí era completamente diferente. As iniciativas estudantis lidavam directamente com os cargos superiores. Nós entravamos a meio das reuniões da presidência. Também porque a Associação de Estudantes é uma das instituições que mexe com mais dinheiro. Tem outra força. Na FCSH nem se consegue explicar às pessoas que há cinco anos não havia praxe… E que elas são ridículas, absurdas e de uma baixeza sem descrição. Tudo porque um ano em que 80 por cento dos alunos (que entraram para ali por não ter entrado em mais lado nenhum) se dedicou a inventar uma tradição. Não é para isso que uma universidade serve. Vai uma grande distância entre ensino público e ensino para todos.

Em que sentido?
Há pessoas que não têm de estar no ensino superior. Simplesmente porque não gostam de estar lá, nem querem.

Vão atrás de um sonho alheio?
Vão atrás de um vício social. É um típico exemplo de carneirada. Seguem todos atrás uns dos outros por aí fora. Há faculdades que não têm coisas para ensinar a toda a gente.

Nunca te apeteceu dizer isso numa RGA?
Aí geralmente discute-se quem é mais de esquerda.

Do género a minha esquerda é maior que a tua?
Exacto. E nessas discussões não costumo participar. Sei que as universidades correm o risco de serem ocupadas por professores que não as deviam ocupar, da mesma maneira que correm o risco de serem ocupadas por alunos que não as deviam ocupar. É um ciclo vicioso. Actualmente um aluno que queira estudar Literatura não vai para uma universidade.

No teu caso, foste para teres aulas com o Alberto Pimenta. O que mais gostas na obra dele?
A capacidade de trabalho. A minha faceta de activista é essa. Ser um defensor do ofício. Tenho professores com uma grande intuição para o que ensinam. Mas também outros que são geniais e que trabalhavam 40 horas para dar uma aula. Aprecio muito isso. Que alguém me mostre que teve 100 horas a fazer um enunciado de uma frequência.

Essa valorização do trabalho é quase uma heterodoxia num país em que a corrupção está na ordem do dia?
Sei que é complicado, mas esse é o verdadeiro sistema anglo-saxónico. Espanta-me que se fale tanto do esgotamento do sistema francês e que temos de mudar, mas quando a oportunidade surge diz-se mal dela. Cursos de três anos!, exclamam, não pode ser, tem de ser de cinco, como na Sorbonne… Fazer um paper por semana?, indignam-se, isso é para as más universidade da América e de Inglaterra. Importante é ler uma bibliografia de 1.500 livros para ao fim de três anos fazer um ensaio… Não se tentou implementar com Bolonha a filosofia que lhe está subjacente. Por mais intuição que tenhas, a ideia tem de durar três anos. Quando devia ser o contrário. Desenvolves essa ideia esta semana e para a próxima tens outra, se faz favor. Mas continua-se a alimentar esse espírito: é um rapaz muito intuitivo, teve uma boa ideia, vamos lá puxar por isso durante três anos para fazer uma tese.

O modelo de Bolonha agrada-te?
Muito. Está bem pensado. E não é suposto as universidades, principalmente nas não científicas, reterem os alunos. Todos têm o direito a frequentar uma universidade pública. Mas se não querem aprender não vamos retê-los e obrigá-los a ser criativos. Quem pensar assim tem de ser despachado em três anos. Fica com um canudo de um curso que, de três ou cinco anos, como sabemos, não serve para nada.

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