Entrevista com António Câmara: aprender no bar, curtir nas aulas

A universidade como motor da sociedade, onde o saber não ocupa lugar e que ainda dá lucro. Eis a fórmula de sucesso de António Câmara, 55 anos, um dos rostos internacionais da inovação portuguesa. Nas Ciências, como nas Humanidades, o seu sonho é instituir uma economia do conhecimento. Os velhos do Restelo que se cuidem: o futuro passa por aqui. Rápido como a Internet, criativo como o génio humano

Salas de aulas transformadas em bares, alunos que são empreendedores e líderes da sua geração. No futuro, garante António Câmara, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, o ensino superior será o centro das novas indústrias. Arrojadas e originais. Mas para isso as universidades e os institutos politécnicos têm de se afirmar enquanto territórios de fronteira e espaços em que se dá liberdade ao erro. E o risco é a palavra chave para se encontrar novos e diferentes horizontes. António Câmara criou o seu na Ydreams, uma empresa dedicada às tecnologias interactivas, que fundou, em 2000, com Eduardo Dias, Edmundo Nobre, Miguel Remédio e Nuno Correia. Um projecto de sucesso que só foi possível depois de mais de 25 anos a mudar a forma como se ensina e aprende. A defender, como indicam os títulos dos seus dois livros de ensaios, que o Futuro Inventa-se e que se pode seguir Voando com os pés na terra.

Lendo os seus livros, uma ideia parece ressaltar: o ensino superior pode ser um motor da sociedade.
A universidade é, de facto, um motor da sociedade. E um estudo recente de Massachusetts aponta nesse sentido. Alguns investigadores procuraram saber quais os principais motores da economia naquele estado norte-americano e chegaram à conclusão de que são dois: os hospitais e as universidades (em Portugal, o cenário não é diferente). A importância dos hospitais, tanto social, como economicamente, é fácil de entender. Mas foi das universidades que saíram as pessoas que fundaram as grandes empresas mundiais. Neste contexto, tiveram especial importância instituições como Stanford, Cambridge e o MIT [Massachusetts Institute of Technology], precisamente porque definiram como prioridade a criação de novas indústrias. Tenho a certeza de que será a partir das universidades portuguesas que se operará uma mudança na economia nacional.

Como é que isso será possível?
Seguindo o conselho que o director do Economist deixou quando nos visitou há dois anos: promovendo uma universidade de classe mundial. É o que faz a diferença. Mas não é só neste domínio. Acabo de regressar de uma iniciativa desportiva, em Portimão, em que o meu filho participou. Também ali, no basquetebol juvenil, se via claramente que quem tem boas escolas ganha, que não as tem, perde. Hoje em dia, a economia é como a alta competição: com boas escolas vence-se, com más é-se um país de terceira.

Concretamente, o que pode ser feito nesse sentido?
A fórmula é sempre igual: temos de ter os melhores professores que é possível contratar. As melhores universidades vão ser as que recrutarem os melhores professores. Exactamente como o desporto, em que impera a lógica das contratações. Portugal tem de seguir esse caminho, o que já foi fácil, mas neste momento não é.

Há poucos atractivos na carreira universitária?
Sob todos os pontos de vista, incluindo a nível salarial, área em que as discrepâncias são enormes. Temos de atrair pessoas a nível internacional. O exemplo a seguir é o da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, que neste momento tem professores provenientes de mais de dez países. O que só é possível porque, apesar de tudo, Portugal é atractivo.

Sim, o clima é muito elogiado no meio académico internacional…
Mas não só… As melhores universidades têm bons alunos e algumas já estão razoavelmente equipadas, daí que as diferenças em relação ao que se vê no estrangeiro sejam cada vez menores. Mas o que distinguiu os Estados Unidos da América foi a aposta na fronteira e não no bom comportamento.

As universidades portuguesas arriscam pouco?
Basicamente, Portugal é um país muito bem comportado. Na investigação, seguimos os líderes mundiais. Na educação, temos um pensamento convencional. Duas perspectivas que não atraem ninguém. Normalmente, as pessoas gostam de locais que se colocam nas zonas limites e pouco exploradas.

Isso quer dizer «ser pioneiro»?
Exactamente. O que significa risco, que é a palavra mais difícil de todas. A maior parte das pessoas não quer assumir riscos, porque levam ao falhanço. Mas não podemos ter medo do falhanço porque é ele que nos leva à diferença. O risco é tudo. Quando estive no MIT foi isso que senti: havia uma licença para o risco. E bem diz o ditado: quem não arrisca não petisca.

As mudanças ao nível da gestão, no âmbito do RJIES, foram do seu agrado?
Sem dúvida. Agora há condições para fazer algumas mudanças.

Compara muitas vezes um professor a um treinador. Porquê?
Porque todos os estudantes são diferentes. Ter essa consciência é um cuidado que qualquer pessoa deve ter. Sobretudo com os que ficam para trás ou nas margens. Esses requerem um trabalho individual, como num equipa de desporto. Depois, há os excepcionais, aos quais temos de colocar desafios. Daí que um professor tenha de conhecer todos os estudantes que tem na sala de aula, como pensam, quais as suas capacidades e, com esse conhecimento, tirar o melhor deles. Porém, não se consegue atingir essa meta com um sistema baseado em exames. É um tipo de ensino impessoal, em que apenas se vai às aulas, nunca se conhece os professores e depois tem-se um exame que nos filtra. Quando se passa, é-se bom, caso contrário, é-se mau. É uma visão patética. O que mais me entristece na sociedade portuguesa é só se associar o rigor no ensino aos exames. Só há uma palavra para definir isso: imbecilidade. São pessoas que não percebem nada de educação.

Nos seus textos autobiográficos fala com prazer do seu absentismo, do tempo dedicado a ler, a ir ao cinema e a conviver.
Foi o melhor que me aconteceu. Se tivesse ido durante cinco anos às aulas do Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa acho que teria tido uma vida miserável, naquela altura e depois. Hoje em dia orgulho-me todos os dias da decisão de ter estudado de uma forma diferente. Porque mesmo sem ir às aulas, eu estudava e trabalhava ao mesmo tempo, só que aquele tipo de ensino não era nada entusiasmante. Um teórico americano afirmava que a realidade não enganava. Se olharmos para as nossas universidades, constatamos que os estudantes não vão às aulas. Algum motivo devem ter. Não é por serem mandriões. Eu próprio não era mandrião. O problema, parece-me, está muito mais na oferta do que na procura.

A Internet e as novas tecnologias podem mudar a nossa relação com as aulas?
Muito. Num estudo de 1988, promovido pela universidade Virginia Tech, Charles W. Steger, o actual presidente da instituição, defendia que as aulas deviam ser excepcionais. E que se devia acabar com o modelo que desde a Idade Média temos vindo a seguir. Mas isso tinha uma consequência: como acabavam as aulas tradicionais, sobravam salas. E o que fazer com elas (porque apesar de tudo era importante que os alunos convivessem com os professores)? Solução: construir bares.

Ter bares em vez de salas aulas?
Exactamente, e com o bom tempo que há em Portugal podemos substituí-las por esplanadas. Aí poderíamos tirar dúvidas e discutir, ter acesso à Internet, sítios para projectar vídeo ou outros suportes. Nesse sentido, a arquitectura pode ter um papel fundamental.

A chave desse espírito universitário é a autonomia?
Só num sistema de marcação de falta é que o estudante não tem autonomia. O importante é criar ambientes universitários terrivelmente excitantes, onde uma pessoa goste de lá estar e no qual sinta que está a crescer. Ou seja, o contrário da experiência óleo de fígado de bacalhau, em que se pensa: tenho de estar aqui porque depois quero um emprego.

É por isso que fala em exploradores por oposição a empregados?
Os alunos têm de se aventurar. Não ficar à espera. Mas não digo exploradores só no sentido de empreendedores. Também podem ser líderes cívicos, artistas, cientistas. Mas têm de ser originais. Provavelmente, nem todos vão conseguir sê-lo. No entanto, uns podem arrastar os outros. Muitos dos ex-alunos do MIT que fundaram empresas contrataram os antigos colegas.

Essa lição, que tem aplicado na Ydreams, já tem consequências na organização dos currículos universitários?
Ainda não transpusemos para a universidade o conhecimento adquirido na nossa empresa. Damos algumas cadeiras, mas pouco mais. Porém, a nossa ideia é essa transposição ter duas dimensões. A primeira, é o currículo escondido. Todas as cadeiras têm de ser permeáveis a um conjunto de conceitos chave. As pessoas têm de saber comunicar, identificar o que é propriedade intelectual ou o valor do que fazem para a economia em geral. A segunda, é a criação de cadeiras específicas, em particular em quatro áreas centrais: a tal propriedade intelectual; o marketing e as relações públicas, de forma a perceber o mundo de hoje dominado pela web e suas regras; os modelos de negócio, para se saber como se ganha dinheiro de uma forma completamente diferente; e, por último, o espírito do «fazer». Como propunha Neil Gershenfeld, do MIT, num dos seus famosos cursos, é preciso ensinar os estudantes a saber fazer quase tudo.

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