Entrevista com António Nóvoa: O futuro está nas universidades (versão integral)

Está até disposto a fazer desaparecer a sua universidade, mas não abdica do que julga mais importante: a reorganização da rede do ensino superior. É um debate que o reitor da Universidade de Lisboa lança nos 100 anos da refundação da universidade. Fá-lo sem arrogância, nem preconceitos. Porque acredita que «a grande mudança da sociedade portuguesa ou se faz mudando as universidades ou não se faz»

Não aconteceu durante a entrevista, mas a secretária de António Nóvoa tem autorização para interromper qualquer reunião que esteja a decorrer. Motivo? O reitor da Universidade de Lisboa (UL), no cargo há quatro anos, garante a todos os alunos que tenham estudado no estrangeiro a certificação imediata das suas equivalências. «Um processo que há alguns anos podia demorar um ano é agora automático», adianta. E essa bem poderá vir a ser a marca dos seus mandatos (vai no segundo): uma maior eficiência nos processos administrativos da reitoria, deixando às faculdades o que é das faculdades, o ensino e a investigação. A constituição de um centro de recursos e serviços partilhados é um exemplo desta nova metodologia, que o especialista em História da Educação viu implementado nas várias universidades do mundo em que leccionou: Genève, Paris IV – Sorbonne, Wisconsin, Oxford e Columbia. Agora, António Sampaio da Nóvoa, 56 anos, aponta baterias para um centro académico, no antigo centro comercial Caleidoscópio, no jardim Campo de Grande, e para quatro residências universitárias, à Rua João Soares, perto da Biblioteca Nacional (BN). Para este último grande projecto, que poderá contribuir para a redução dos custos de frequência do ensino superior de muitos alunos, uma das prioridades da sua gestão, o reitor já teve o «sim» do Governo para a venda de um terreno da UL no Parque das Nações e para a transferência total do seu valor – actualmente avaliado em 8 milhões de euros – para as contas da reitoria. São pequenas mudanças e contributos – como o de alargar os horários das bibliotecas da UL enquanto a BN estiver fechada para obras – que podem fortalecer a qualidade da formação e da investigação das faculdades, nomeadamente nas pós-graduações, de forma a que a UL ajude a recriar a República. De olhos postos no futuro.

O centenário da UL será uma oportunidade para perspectivar uma nova refundação da instituição?
Sim. As universidades são instituições que transformam o passado em futuro. O que é verdade na área do ensino, com a formação de novas gerações de estudantes, da ciência e do conhecimento. Mas também na própria renovação da sociedade. A República criou a Universidade, agora a Universidade ajudará a recriar a República, na medida em que tem um papel muito importante no futuro da sociedade. É isso que estamos a celebrar.

Que momentos destaca nestes 100 anos de História?
Em primeiro lugar, a sua própria refundação, em 1911. Não tanto pelo que acontece dentro da Universidade, já que nas primeiras décadas continua-se a fazer o que já se fazia nas antigas escolas de Lisboa (Médico-Cirúrgica, Politécnica, Curso Superior de Letras que passaram a faculdades juntamente com a criação da de Direito), mas pela aquisição do estatuto universitário, que até à data era monopólio de Coimbra. Em segundo, a construção do campus universitário e suas infra-estruturas, nas décadas de 50 e 60. Em terceiro, o pós 25 de Abril de 1974, em que se assiste a uma enorme expansão e democratização do ensino. Em quarto encontramos a fase actual, fortemente marcada pela aposta nas pós-graduações, no conhecimento e internacionalização. Hoje em dia, 40 por cento dos nossos estudantes são de pós-gradução, quando há dez anos éramos uma universidade quase exclusivamente de licenciaturas.

Ter entre os antigos alunos os últimos três ex-presidentes da República é uma imagem de marca muito forte.
De facto, é uma imagem muito forte. Deve ser caso inédito um regime político ter os seus três primeiros presidentes oriundos da mesma universidade. Claro que a Universidade de Coimbra deu os primeiros presidentes à I República, mas era a única. Mas, hoje, o país tem um conjunto de instituições muito qualificadas. Contrariamente ao espírito dos rankings ou de uma competição por vezes demasiado exacerbada, sinto um grande orgulho nas nossas universidades, quer como responsável por uma, quer como cidadão. Pelo que não se pode dizer que haja uma universidade que lidera. Há muitas e boas. No entanto, como manda a tradição da Europa continental, ao contrário da inglesa e norte-americana, as universidades sedeadas na capital têm um papel fundamental. E numa altura em que estamos a precisar de reorganizar a rede do ensino superior, se há algum contributo que a UL pode dar é dizer que está disponível para desaparecer. Estamos dispostos a acabar para que surja no seu lugar, em conjunto com outras universidades, uma nova realidade universitária em Lisboa. O país precisa, porque a actual rede é insuportável. Os últimos anos corresponderam a uma ilusão de crescimento. Pensou-se que havia muito dinheiro e possibilidades. E a expansão do sistema sustentou essa ilusão. Nas próximas décadas, o tempo será de agregação, de construção de massa crítica e de consolidação da qualidade. Mas para isso, é preciso muita coragem e ousadia.

Apesar de estar a liderar esse processo, a sua postura é mais de fusão do que aquisição? Ou seja, está disposto a perder essa marca mítica que é a UL?
Não pode ser de outra forma. É preciso respeitar as instituições e a sua história. Seria absurdo pensar em aquisições. Quando falo na reorganização da rede, faço-o na perspectiva de alguém que está disposto a pôr em causa a sua universidade e a entrar numa fase de refundação. O contrário seria uma postura arrogante e sem sentido. Acho genuinamente que a UL tem algumas qualidades e muitos defeitos e que está num patamar próximo das outras universidades. Não somos melhores nem piores do que o Porto, Coimbra, a Nova de Lisboa ou a Técnica. Mas quando se olha para o país, sobretudo longe do paroquialismo das nossas instituições – e em Portugal somos muito paroquiais – qualquer pessoa de bom senso percebe que o cenário é insustentável. Lisboa não pode ter, num perímetro de um quilómetro quadrado, quatro ou cinco instituições de ensino superior público. Não digo que se deva fundir tudo numa – o maior não é necessariamente o melhor. E não defendo fusões administrativas – não é por as pessoas se juntarem que passam a ser melhores. É preciso um trabalho de base, de baixo para cima, para se perceber o que é possível juntar e com que ganhos e o que é preciso acabar.

Tem tido receptividade a essa sua proposta?
Muito pouca. Como Reitor percebi – e talvez tenha sido a constatação mais dolorosa enquanto cidadão que gosta de intervir no país – que nada se faz se o Governo não estiver disposto a isso. E não é este governo em concreto. É a sensação de que a nossa vida está dominada por uma sistemática governamentalização. Há pouca liberdade nas instituições universitárias. E uma medida destas, que é uma ruptura radical com o enquadramento que existe e se consolidou nos últimos 30 anos de democracia, só pode ser feita se houver um governo muito envolvido e disponível.

E não há vontade política?
O Governo nunca se mostrou disponível, antes pelo contrário, acabou por cristalizar a actual rede do ensino superior. Não favoreceu uma lógica de diálogo ou de consórcio. Houve alturas em que se falou na necessidade de evoluir para escolas e programas doutorais que envolvessem várias instituições, mas verdadeiramente nunca foi feito. E nos poucos momentos em que se avançou, foi sempre da maneira errada. É o caso dos programas com o MIT ou outras universidades norte-americanas. É verdade que se assinaram vários protocolos, mas uma vez mais através da acção do Governo. Não foi resultado de uma associação genuína entre universidades. Não há ninguém mais favorável a esses acordos do que eu. Trabalhei e fui professor durante vários anos – não por uma semana ou um mês – em grandes universidades europeias e norte-americanas, não me formei na UL, estou cá provisoriamente e não penso acabar aqui a minha vida. Por isso tenho esse olhar de fora que me permite ver como é que estas coisas são importantes. Mas nunca através de uma acção do Governo.

Consegue identificar os motivos dessa falta de vontade política?
Vamos dizer isto de uma forma desapaixonada. Se calhar com razão, o governo, sobretudo o primeiro do eng. José Sócrates, mostrou uma enorme desconfiança em relação às universidades. Havia um diagnóstico que indicava as universidades como meios conservadores, imobilistas, extraordinariamente coorporativos, onde se mantinham privilégios e nada funcionava. Esta análise fez com que o Governo, em vez de investir nas universidades e na sua transformação, criasse projectos à sua volta: grupos de ciências, laboratórios associados, etc. No fundo, constatou-se que não era possível mudar e que era mais eficaz e rentável, do ponto de vista da renovação da sociedade, investir à margem. Sou capaz de perceber este diagnóstico e se calhar concordo com ele. A universidade portuguesa é muito fechada, com muitos erros e imobilismos e com comportamentos inaceitáveis de muitos professores. Por isso, posso até dar o benefício da dúvida, mas esta política a médio e longo prazo é absolutamente trágica. Torna as instituições universitárias ainda mais imóveis. Cristaliza-as no seu imobilismo e dá a ideia de que tudo o que se passa de inovador é fora delas: nos laboratórios associados, nos centros de investigação, nos grupos de ciência. E depois há por ali umas criaturas que se chamam universidades. Apesar de tudo essa percepção mudou.

Em que sentido?
O segundo governo José Sócrates, apesar do ministro ser o mesmo, tem uma atitude diferente. Há um esforço para perceber que ou é pelas universidades ou então não é. Porque o grande problema desses projectos que se criam à volta da universidade é que necessitam de uma injecção permanente de recursos e energia. Na altura em que o ministro x ou y ou presidente da FCT mudar e deixar de fazer essa injecção aquilo desaparece. Para o bem e para o mal, as universidades têm uma enorme permanência no tempo e poder de sustentação. A grande mudança da sociedade portuguesa ou se faz mudando as universidades ou não se faz. Não quero exagerar, mas o resto são fogachos. Podem até ser interessantes e inovadores, organizarem conferências e outras iniciativas, mas a médio prazo não têm sustentação. A minha discordância durante quatro anos com este governo não é no diagnóstico, nem em muitas coisas que é importante romper, mas na política seguida nessa matéria, que investe mais no curto prazo.

Isso afectou a imagem que se tem das universidades?
Nos primeiros quatro anos do governo José Sócrates, a universidade foi muito prejudicada. Até porque o governo para legitimar a sua acção de não investir nas universidades, mas fora delas, acentuou essa dimensão. Basta lembrar as afirmações de Teixeira dos Santos, de Mariano Gago e de outras pessoas que iam no sentido de sermos todos maus gestores, que desperdiçavam o dinheiro dos contribuintes. Passaram uma imagem muito injusta. E é curioso que no segundo governo se passa precisamente a mensagem contrária. Passámos de indivíduos despesistas e gastadoras para os mais geniais do mundo. O primeiro-ministro passa o tempo todo a dizer que não houve pessoas mais eficientes, capazes e notáveis do que os reitores e que, dando o exemplo, conseguiram fazer muito mais com muito menos num período de grande crise e contenção. E na verdade somos os mesmos: não tão maus como diziam, nem tão bons como agora nos pintam. Houve uma política conjuntural que levou a uma crítica excessivamente injusta e provavelmente a um elogio também excessivo neste último ano e meio. Há muitas coisas que funcionam mal, mas dentro das que funcionam bem está o facto das universidades serem muito modestas no bom sentido do termo.

Qual é esse bom sentido do termo?
Não gastam dinheiro a mais. Tudo aquilo a que se assistiu nos bancos e nas empresas públicas nunca se assistiu nas universidades. Em 36 anos de Democracia, nunca se endividaram um tostão, nem contribuíram para a dívida pública. Vivemos sempre com aquilo que tínhamos. E nesse sentido as universidades deram um excelente sinal: viver com o que se tem e não acima das suas posses. Agora, é muito difícil mudar a forma de um professor está na universidade e a sua relação com os alunos. Isto é, introduzir novas formas de trabalho é extraordinariamente difícil.

De facto, muitas vezes se ouve citar por professores os exemplos das grandes universidades europeias e norte-americanas, mas raramente se vê implementá-los.
A nossa universidade não tem a flexibilidade dessas grandes instituições, que têm uma capacidade de mudança, inovação e adaptação muito grande. Mas a universidade portuguesa tem muitas qualidades. Dá uma boa formação de base aos estudantes, mesmo comparando com as universidades norte-americanas.

Qual é o segredo de fazer mais com menos?
Ao longo dos últimos anos conseguimos atrair mais estudantes, aumentar os índices de sucesso escolar e fazer melhor investigação. E isso à custa de um esforço acrescido de professores e investigadores. De um modo geral, quem está hoje nas universidades trabalha muito. Não deve haver muitas profissões em que se trabalhe tanto como nas universidades. Poderá haver, como em todos os sectores, cinco ou dez por cento de pessoas que não trabalham. Mas a esmagadora maioria trabalha imenso e deu uma notável prova de capacidade de superação de dificuldades. Nos quatro anos como reitor, a UL diminuiu sempre o seu orçamento, com excepção de 2010 em que houve uma ligeira melhoria, aumentando todos os anos o número de diplomados, de pós-graduações, mestrados, doutoramentos e a produtividade científica. Fizemos de facto muito mais com menos. Mas isto tem limites. Há um momento em que não se consegue mais. Por exemplo, o limite dramático que se vive na UL é o do envelhecimento do corpo docente. Praticamente não recrutámos ninguém. E isto paga-se caro. Não há uma renovação geracional – alguns departamentos têm a quase totalidade dos professores a partir para a reforma, sem terem a possibilidade de socializarem e acolherem as novas gerações, o que é um dos segredos das universidades. Quando o elo entre gerações se corta perde-se o sentido da universidade.

O esforço administrativo que realizou, como a constituição de uma central de recursos ou o fim da duplicação de serviços, também ajudou a esse mais com menos?
Sim. Uma das principais medidas da UL – e foi um processo difícil e duro – foi a criação de um centro comum e de serviços partilhados, que tem permitido enormes ganhos de eficiência. No sentido em que as faculdades da UL, até pela sua história, eram instituições independentes. No fundo, havia quase uma espécie de federação de faculdades. Estamos a tentar acabar de algum modo com essa lógica.

Com que critério?
O trabalho central de uma faculdade é o ensino e a investigação. E sobre este trabalho as faculdades e os professores devem ter total autonomia pedagógica e científica. No dia em que acabarmos com ela acabamos com tudo. Mas outra coisa é a autonomia para contratar o pessoal da limpeza, das obras, da segurança, para saber se se deve usar o sistema informático x, y ou z – isto não é a vida nem o trabalho de uma faculdade. Tem de estar num centro de recursos e serviços partilhados em que, por exemplo, o processamento de salários, que era feito por 50 funcionários, quatro em cada faculdade, seja feito por apenas três ou quatro pessoas. E são suficientes. O centro de recursos permitiu criar serviços mais eficientes, de maior qualidade do ponto de vista técnico e tecnológico, sem tirar essa autonomia central das universidades.

A ideia do centro parece ser um ovo de Colombo. Haverá outros espalhados pela UL?
Há um mais difícil de concretizar, mas em que temos avançado com grande determinação: a junção do ensino e da investigação. A política seguida durante muitos anos, em particular pelo ministro Mariano Gago, inclusive na década de 90, foi a de criar uma espécie de estrutura paralela. Há o ensino por um lado, financiado de uma determinada maneira, e a investigação por outro, com outra lógica de financiamento. Isto criou dentro das instituições universitárias uma clivagem totalmente indesejável. No ensino cada vez tínhamos menos dinheiro e éramos menos reconhecidos, enquanto que ao lado a investigação tinha cada vez mais dinheiro, prestigio e visibilidade. Curiosamente, muitas vezes eram as mesmas pessoas. Como se eu, professor António Nóvoa, fosse medíocre, imobilista e conservador. E eu, António Nóvoa investigador, fosse uma pessoa excelente. Esta espécie de esquizofrenia e dupla legitimidade foi muito alimentada. Há dois, três anos temos vindo a tentar inverter essa política, dizendo que o trabalho na universidade é nestas duas valências. Portanto, têm de estar integradas. Hoje em dia, representantes dos departamentos, que têm a ver com o trabalho de ensino, e representantes dos centros de investigação fazem um conselho científico único onde se debatem estas questões. Esta integração permite uma maior ligação entre ensino e investigação, uma melhor gestão dos recursos e outras sinergias necessárias. Por exemplo, um professor que ganhe um projecto europeu e precise de três anos de dedicação exclusiva será dispensado do serviço docente. E vice-versa. Numa qualquer universidade norte-americana estes são os fundamentos básicos de organização.

É por isso que no discurso de abertura do ano académica deste ano a palavra-chave é «Liberdade», enquanto que em 2009 era «Oxigénio»? Houve uma evolução no seu pensamento?
A questão do financiamento é muito difícil. Nos últimos quatro anos a UL tem tido cortes piores do que os que se avizinham. Foi uma política intencional do governo para uma espécie de estrangulamento das universidades. Estranguladas, elas eram asfixiadas na sua própria capacidade de se mobilizarem. Alguém que está com a corda na garganta não tem capacidade para se mexer. O país está a viver a crise neste momento, mas nós há quatro anos que a vivemos. É uma situação quase desesperada. Estamos num nível de financiamento do final do século passado. O que a UL vai receber este ano do Orçamento do Estado é inferior ao que recebeu há dez anos. Isto com inflação e o aumento de estudantes, sobretudo nas pós-graduções. Há um momento em que por mais eficiente que sejamos não conseguimos ir mais além. Isto dito, se me perguntar com o que é que tenho mais dificuldade em viver, digo-lhe que é com a intervenção sistemática do governo ou da administração central.

Consegue dar um exemplo dessa interferência?
Houve agora um concurso para a Faculdade de Direito e surgiu uma notícia segundo a qual aquele concurso é ilegal. Tenho 10 pareceres de juristas a dizerem-me que o concurso teve e podia ter lugar. Outros dez a dizerem que o concurso teve lugar e que não devia ter tido. Outros ainda a dizer que talvez. Com uma mesma decisão do ministro nós nunca sabemos o que fazer. Se se aplica, se não se aplica. Se as universidades estão incluídas ou não. Já discuti dezenas de vezes sobre os 20 por cento das cativações às propinas. Com vários ministros, com o CRUP (conselho de reitores) e com dezenas de juristas. E no entanto não lhe sei dizer se se aplica. Cada um tem a sua teoria sobre o assunto. E quando em cima de cada teoria vem a inspecção-geral do ensino superior, depois a das finanças – que estão cá permanentemente, tenho até uma sala própria para os receber – e a seguir o tribunal de contas… E com inspecção de 700 páginas, em que vão ver tudo ao milímetro. É uma asfixia no quotidiano da instituição impressionante. Gastamos metade do nosso tempo, se não for mais, a tentar decidir se podemos ou não podemos, se se contrata assim ou assado. Às vezes contratamos serviços que são mais caros e com menos qualidade só por que são mais legais. Tenho até um relatório de uma auditoria, que não vou dizer qual é, que critica a UL por ter contratado uma pessoa para uma função. Não teria sido ilegal até Dezembro de 2006 e a partir de Junho de 2007, mas como foi feita em Março… E o reitor apanha uma multa pessoal [no sentido de «poderia ter apanhado»]. No entanto, em off dizem-me que foi um acto de gestão absolutamente extraordinário – poupou-se muito dinheiro. É uma realidade que eu não conheço em mais país nenhum.

Nesse contexto, o modelo de fundação, que criticou, não seria mais ajustável a uma universidade?
Não tenho nenhum preconceito em relação às fundações. Agora, o modelo de fundação tal como foi definido para as universidades não existe na lei. As universidades são instituições públicas de direito privado. É um modelo que só existe no RJIES – Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior. Ninguém sabe o que quer dizer. Pareceu-me arriscado estar a lançar uma universidade num processo que ninguém sabe o que é. Outros colegas meus avançaram numa perspectiva que não é a minha: vamos a jogo e ver o que dá. Com todo o respeito, não me parece a maneira de envolver uma universidade. Além disso, estou convencido que na actual conjuntura económica todas as parcerias público-privadas vão acabar. O momento em que vivemos, de resto, é resultado desses desdobramentos sistemáticos do estados, numa importação dos conceitos da terceira via de Tony Blair, que ruíram com esta crise. Digo que o RJIES está esgotado porque é produto de uma concepção do Estado que acabou total e definitivamente nos últimos meses.

Que leitura faz do Orçamento do Estado 2011 para as instituições de ensino?
Estamos neste momento numa grande agitação. Porque o compromisso do governo era de uma ligeira diminuição dos orçamentos das universidades, na ordem do 1,5 por cento. Uma diminuição difícil, mas acomodável. Para além disso, havia a redução dos cortes salariais, que não afectam directamente a instituição – é dinheiro que o Estado nos retira mas também que não temos de pagar. É dramático para as pessoas, mas não para a instituição. Agora estamos quase em estado de choque porque fomos ver o Orçamento e não corresponde a nada disto, mas a um decréscimo brutal.

Não são os 8,8 por centos?
Na verdade, os números consultados são da ordem dos 12 por cento. E não percebemos esse diferencial de mais de três pontos. Os serviços financeiros das universidades estão todos mobilizados para identificar as causas desses valores. Porque os tais 8,8 por cento deve corresponder mais ou menos à redução da massa salarial. Por isso, se os compromissos do governo forem respeitados vamos ter um ano de enorme contenção e dificuldades, mas vamos sobreviver. De outra forma, não há universidade que resista.

Quando fui estudante na UL, lutava-se contra as propinas. Essa é uma batalha perdida? As universidades podem viver sem propinas?
Não. As propinas correspondem a um recurso muito significativo, estão para pagar salários. Já não são para aumentar a qualidade do ensino, como se dizia há 15 anos. Apesar de nunca ter sido um adepto das propinas, acho que não é dramático se conseguirmos manter os valores actuais. Estamos com propinas na ordem dos 1.000 euros por ano, o que é aceitável. O grande problema são os custos de vida relacionados com a frequência do ensino superior – alojamento, alimentação, livros, etc – e não as propinas. É sobre estes que devíamos estar a intervir de uma maneira mais forte.

Daqui a uns anos não se vai achar natural aumentar significativamente as propinas?
Há muita gente a falar nisso. Pessoalmente, sou contra. O que está, está bem. E é preciso ter a inteligência de manter alguns mestrados a um nível de propinas muito próximo da licenciatura. É o que temos feito no caso da História, Filosofia, Matemática, Física, Química, Biologia, que têm também um custo anual de 1.000 euros. Agora, é evidente que o movimento internacional aponta para esse sentido, considerando que o ensino superior é um bem e que os alunos são clientes, pelo que têm de pagar um preço pelo serviço que estão a adquirir. Ao Estado cabe apenas um papel assistencialista. É a ideologia neo-liberal pura. Para mim, a universidade é um bem público e o Estado tem a obrigação de assegurar a todos os cidadãos uma educação superior de qualidade, admitindo um contributo modesto, como o actual valor das propinas, de todos os estudantes.

Não se corre o risco de termos um mercado dos mestrados, com propinas altíssimas para uma formação hoje em dia indispensável?
É aí que está o problema e a grande queixa dos estudantes. É aí que se justifica uma intervenção política mais forte por parte das universidades. A lei diz que os mestrados integrados e os que preparam para o exercício de uma actividade profissional, como a Medicina, Farmácia, Engenharias, Arquitectura, têm de ter um valor de propinas igual ao das licenciaturas. Nós estendemos esse conceito a outras licenciaturas, pois entendemos que a formação de um aluno só está concluída com o mestrado. Mas o perigo que assinala é o que está em cima da mesa. Muitas pessoas reclamam por essa espécie de liberalização do mercado universitário. Grande parte desses discursos baseiam-se no valor económico dos cursos mas, como diz Eliot Freidson, as universidades são uma invenção notável da Humanidade precisamente porque nasceram para proteger o trabalho que não tem valor económico imediato. Se acabarmos com esta lógica e as transformarmos num comércio, estamos a perder o que há de mais precioso nas universidades. A partir daí, qualquer grande empresa pode criar a sua escola de formação, como já acontece. O segredo da universidade é proteger esse trabalho sem valor imediato e ter uma atenção a um conjunto alargado de áreas de saber que são protegidas aqui dentro.

Mesmo com orçamentos reduzidos, o ensino superior teve de implementar a maior revolução das últimas décadas. Faz um balanço positivo do Processo de Bolonha?
Não faço. Num certo sentido, o Processo de Bolonha ainda não começou. Subscrevo uma parte significativa dos valores que lhe estão subjacentes, mas está longíssimo de ser uma realidade. O que fizemos foi apenas no plano formal.

Mudar cadeiras anuais para semestrais?
Coisas desse estilo. São adaptações que não alteraram verdadeiramente a forma de trabalhar. Mas não só em Portugal. De um modo geral, as universidades estrangeiras não estão muito mais avançadas.

Ficámos a ganhar ou a perder com Bolonha?
É difícil dizer. Há ganhos, como a massificação do ensino superior, a simplificação das mobilidades ou o reconhecimento de diplomas de umas universidades para as outras. Mas é evidente que pelo caminho se perdeu muito, como a desvalorização social do diploma e a qualidade da formação também não é a mesma.

Um licenciado hoje em dia sai menos preparado?
Incomparavelmente. E seria estranho que a formação de três anos fosse igual à de cinco. Muitos currículos empobreceram-se anos – há a tendência para serem um bocadinho mais enlatados. Por outro lado, desapareceram cadeiras de introdução a questões filosóficas e culturais. Isto tudo sem que tenha havido uma alteração no modo de trabalho dos professores e alunos.

Mas há condições para o aluno estudar fora da sala de aula, como se defende em Bolonha?
Começa a haver, mas estamos ainda muito longe de considerar que isso é minimamente satisfatório. Do ponto de vista tecnológico já existe. Mas não basta: é preciso que os professores usem os programas e disponibilizem materiais. O que se pode criticar no Processo de Bolonha é ter sido feito numa altura de enorme contenção orçamental. Porque outros países tiveram um orçamento suplementar só para o implementar.

Pessoalmente, o cargo de Reitor tem sido uma viagem interessante?
Muito. Estamos todos um pouco zangados com o país, mas sinceramente sinto um agradecimento enorme. Se tivesse ficado no estrangeiro como durante tanto tempo imaginei, não teria tido a oportunidade de ter exercido este cargo. Estou muito reconhecido à universidade por ter confiado em mim. E não seria o que sou hoje se não tivesse esta experiência.

Recomendaria o cargo a um amigo ou seria um presente envenenado?
Recomendaria. É um enriquecimento brutal. Se contactamos com muitas dificuldades, também contactamos com pessoas de altíssimo nível. De um modo geral, tive momentos difíceis mas sinceramente nunca senti que fui mal tratado. Estudantes, professores, directores e governantes discordaram muitas vezes comigo, mas sempre com respeito e elevação. Mas este é um cargo provisório. Ser reitor não é uma profissão. É um serviço que se presta numa determinada fase da nossa vida. O pior que pode acontecer é profissionalizarmo-nos neste lugar. Quero regressar o mais rapidamente possível à minha vida de professor.

Qual considera ser a sua a sua marca à frente da universidade?
Pôr a universidade muito centrada nas questões da investigação e a valorização dos estudos pós-graduados, que estavam num patamar muito fraco. Também as inovações administrativas, como o centro de recursos e serviços partilhados. Os novos estatutos da Universidade de Lisboa e a criação das áreas estratégicas não sei se vão ficar, porque é algo que quebra a lógica das faculdade e as pessoas reagem muito a isso. Mas é um trabalho em que estamos empenhados. Por último, gostava de deixar uma marca na requalificação dos museus da politécnica, que são a nossa ligação ao coração e centro histórico de Lisboa.

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Re: Entrevista com António Nóvoa: O futuro está nas ...

Na verdade, na sequência desta entrevista do Magnífico Reitor da UL, constato apenas que esta análise não podia estar mais próxima da realidade da vivência das Universidades portuguesas na actualidade. Congeladas em reformas e projectos de reestruturação e adaptação a normas legais que nos são impostas pela tutela e, durante anos (até agora, toda a minha vivência universitária), um marcado desrespeito por estas instituições… É lamentável que instituições que tanto têm dado à sociedade sejam sistematicamente tratadas desta forma, como se viu, novamente, na definição da dotação orçamental para o ano de 2011, quando o Executivo acorda um valor e, na realidade, vem apresentar outro… Apesar de esta entrevista ter mais de 2 meses, a realidade aqui retratada é actual e em muito pouco se assistiu a mudanças.

Resta-me felicitar o Sr. Reitor e a sua magnífica equipa reitoral, não podendo deixar de agradecer pela extraordinária oportunidade que me foi dada de trabalhar com tão notável personalidade. Muito obrigado e muita força para os enormes desafios que se avizinham.

Com os melhores cumprimentos, Fernando Pereira

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