Entrevista com Telma Monteiro: Um passo de judo, outro de estudo

É uma das nossas melhores atletas e prova-o em cada competição, mesmo quando não ganha medalhas. Dá sempre tudo pelas cores nacionais e pelas do seu clube, o Benfica, com o profissionalismo próprio da alta competição. Só não sabíamos que faz o mesmo nas aulas e trabalhos da licenciatura em Educação Física e Desporto. Convidámos Telma Monteiro, 24 anos, para um duelo verbal. E fomos ao tapete.

Nem no ginásio, nem na universidade. Foi na Costa de Caparica, em Almada, mais precisamente na praia da Rainha, que a encontramos. A agenda apertada ditou o inesperado local para a entrevista. E também um aspecto curioso. A par de todas as cadeiras teóricas do curso de Educação Física e Desporto, da Universidade Lusófona de Lisboa, Telma Monteiro tem várias disciplinas práticas. Uma delas é… Surf. Isso mesmo: Surf. À sua espera já está o prof. Sandro Maximiliano, 35 anos, com o seu ar bronzeado a denunciar uma época balnear que não conhece pausas lectivas. Em Telma Monteiro identificou imediatamente as qualidades e a preparação física de uma desportista de alta competição (dedica-se ao judo desde os 14 anos). «Conseguiu pôr-se de pé na prancha logo no primeiro dia», atira. E acrescenta: «Há quem leve semanas». Essa é a marca desta judoca que, aos 24 anos, já conta com duas participações nos Jogos Olímpicos e várias medalhas, inclusivamente de ouro, nos campeonatos nacionais, europeus e mundiais da modalidade. Agora, inicia o caminho para Londres 2012, onde espera conquistar o ouro olímpico que lhe falta. Nos entretantos, é possível encontrá-la com livros e cadernos na mão. É que o seu combate é diário. Faz-se de treinos e de aulas. E de uma persistência oceânica.

O que mais gostas no Judo?
Se tivesse de escolher um aspecto diria a competição. Gosto do desporto em si, de treinar, mas grande parte do gozo vem da possibilidade de entrar em competições.

Não sendo um desporto com tradição em Portugal, como o escolheste?
Foi muito simples: havia uma escola de judo ao pé da minha casa. Incentivada pela minha irmã, que o praticava, tive uma primeira experiência aos 12 anos. Mas na altura não me agarrou muito. Aos 14 dei-lhe uma segunda oportunidade. E ainda bem.

Foi quase um acaso, no início.
Sim e tornou-se um prazer muito grande. Cheguei a experimentar atletismo e futebol, mas nos dois casos a competição não era frequente, ou porque estava mal organizada, ou porque tinha de jogar com raparigas mais velhas. Essa componente competitiva foi de facto determinante.

Em que pensas quando pisas o tapete para um combate?
No que tenho de fazer para contrariar a minha adversária e qual a melhor estratégia para ganhar. Não penso em mais nada, nem nas implicações da vitória, nem na projecção mediática que às vezes resulta de chegar a um certo nível desportivo. Apenas no combate e no que posso fazer para chegar ao próximo.

És como aqueles jogadores de xadrez que estão várias jogadas adiantados, sempre a pensar no movimento seguinte?
Sim, temos de ter essa capacidade de antecipação. Perceber o que vai fazer o nosso adversário e encontrar a melhor solução para ultrapassar as dificuldades que ele nos coloca. Muitas pessoas não têm consciência disso, mas há uma componente táctica muito forte no judo, além de toda a técnica.

Neste caso, aprende-se fundamentalmente com o adversário?
Sim, não há volta a dar. Temos sempre de treinar com alguém. E quanto mais fortes forem as pessoas com quem treinamos maior será a nossa evolução. E quanto mais variadas foram essas pessoas maior será a nossa preparação para as diversas situações que surgem num combate. E como preparas um torneio, como os que agora começas a ter para atingires os mínimos olímpicos?
Com treinos técnicos e físicos de manhã e à tarde. O meu dia começa normalmente às seis e meia da manhã, para me preparar para o primeiro treino, às oito. Depois vou para a aulas. Volto a treinar ao final do dia.

É uma preparação muito diferente da que um exame requer?
Para um exame não preciso de tanta preparação… Às vezes, basta estudar uma semana, ou nem isso. No judo não se pode facilitar, nem parar. Temos de estar sempre a trabalhar. Normalmente só tenho três semanas de férias. O resto do ano é para treinar.

Consegues aplicar nas aulas o que aprendes no judo?
Provavelmente, os desportistas conseguem lidar mais facilmente com a pressão inerente aos exames. Têm de ser pessoas organizadas e disciplinadas, qualidades que beneficiam muito o estudante. Aprende-se a conciliar as duas actividades e também a saber gerir uma carreira desportiva.

O segredo é trabalhar por objectivos?
Exactamente. E a partir de certa altura torna-se fácil, quase um estilo de vida ou um hábito. Até porque começamos muito cedo e cresce-se mais depressa.

Então és daqueles alunos que nunca ficam nervosos antes de um exame, nem roem as unas.
Roer, sempre ruí as unhas. É um vício. E claro que fico nervosa, mas não preocupada.

Parece que tens um botão que te permite estar constantemente concentrada.
Basta ser persistente e pensar que temos de fazer as coisas por maior que seja a pressão. E depois começar. Às vezes, os trabalhos não ficam como eu gostaria, ou as notas não são as melhores, mas faz parte do processo. Acontece. Mas quando uma coisa é boa para nós, e gostamos dela, não se deve desistir facilmente.

Mesmo com uma carreira de alta competição, já com duas presenças nos Jogos Olímpicos, nunca abdicaste do ensino superior. É uma valorização pessoal?
É um curso que faço por mim. Sei que financeiramente não me vai trazer muita segurança, mas é importante para aumentar o meu leque de conhecimentos e a minha experiência, até porque gostava de, no futuro, abrir uma escola de judo. Além disso, é bom ter qualquer coisa fora do desporto.

A Universidade Lusófona é a tua segunda universidade. O que aconteceu na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa?
Essa experiência coincidiu com a minha primeira participação nos Jogos Olímpicos, em Atenas, em 2004. Só consegui fazer um semestre e na verdade não me adaptei muito bem. Não quero estar a dizer que uma faculdade é melhor do que a outra, mas os horários eram pouco compatíveis para quem fazia alta competição e não encontrei professores que por sua iniciativa se mostrassem compreensivos para com a minha situação. Também não sou pessoa de pedir nada, por isso não correu bem.

Notas diferenças entre o ensino público e o privado?
No início confesso que estava com receio de ir para o ensino privado, pensava que ia ser muito mais fácil. Mas tenho verificado o contrário. Os professores são interessados e exigentes, também porque correm o risco de, se não ensinarem bem, ser despedidos… Mas a principal diferença é ao nível da secretaria, que para um desportista é muito importante: são menos burocráticos e mais flexíveis.

O ensino superior beneficiaria se tivesse uma estrutura mais competitiva, no bom sentido, como o desporto?
Acho que sim. Era bom que houvesse essa consciência. Sempre que vou a uma escola digo isso: um teste é como uma competição. Sentir-nos-emos mais tranquilos e confiantes se soubermos que fizemos o que tínhamos a fazer. É o famoso ditado: quem dá o que tem a mais não é obrigado. No judo, treinar, na aulas, estudar. Esta perspectiva aumenta a nossa autoestima. Se eu fosse para uma competição de judo sem treinar, como já fui uma vez – e arrependi-me –, o meu estado de espírito não seria o mesmo.

Durante o ano lectivo, participas na vida universitária, nas RGA e afins?
Não, estou muito fora desse ambiente.

Por falta de tempo?
Sim, mas também porque não é muito a minha onda. Gosto de estar com os meus colegas, fazer os meus trabalhos, tentar passar nas cadeiras e pouco mais.

Por isso, nunca te encontraremos à frente da Assembleia da República a dizer mal de um ministro?
Não… Mas acho bem que existam pessoas que se interessem por esses temas e que defendam os interesses dos alunos.

Fala-se muitas vezes do descrédito do ensino superior, com a falta de verbas e de empregos. Sentes os alunos desmotivados?
Pelo contrário: acho que o nível é cada vez mais exigente. Com a crise em que vivemos, uma licenciatura já não é suficiente, como se calhar era há dez anos. A concorrência é maior e só o doutoramento começa a fazer a diferença no mercado actual.

Qual o teu lema de vida desportivo e universitário?
Acreditar. Porque quem acredita e trabalha em função dessa crença acaba sempre por merecer as suas conquistas. Uma forte componente psicológica é fundamental para se ter sucesso. E para isso é preciso acreditar.

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