Entrevista a Júlio Machado Vaz - O sexo e a (univer)cidade

Liberdade, desinibição e igualdade entre sexos são os conceitos fundamentais para se perceber os comportamentos sexuais dos estudantes. Quem o diz é alguém com anos de experiência clínica em sexologia e uma vida inteira dedicada à docência. A Aula Magna foi bater à porta do seu consultório e faz a radiografia de uma época.

É um falador nato. Confortavelmente sentado no sofá, voz pausada mas convicta, o olhar bem fixo no interlocutor. Júlio Machado Vaz tem o dom da palavra e domina a arte de uma boa conversa. Não é por acaso que se tornou um dos rostos mais mediáticos da televisão e rádio portuguesas. O tema também ajuda. Sexo a todos diz respeito e o professor jubilado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, aborda os assuntos sem tabus nem complicações. Retrata com frontalidade os novos hábitos sexuais, como reafirma a necessidade de informação e formação. E dos afectos. Os 30 anos que leva de prática clínica também lhe permitem aferir as mudanças que, desde o seu tempo de juventude, se verificaram na sociedade portuguesa. Nem sempre no mesmo sentido.

A entrada no ensino superior é um momento decisivo para a sexualidade dos estudantes?
No meu tempo era, em termos práticos e simbólicos, a primeira oportunidade de ter aulas com raparigas. Hoje em dia, é importante pela liberdade que proporciona. Os estudantes passam a ter outra disponibilidade temporal e psicológica. É uma espécie de ritual de passagem, que muitas vezes, segundo as estatísticas, corresponde à primeira relação coital.

É um período de descoberta?
Sem dúvida, até porque o estudante está a seguir o trilho que escolheu. É o primeiro passo na direcção do que sempre desejou ou que levou tempo a perceber que queria. Mas não podemos ser ingénuos e pensar que os estudantes do ensino superior são uma elite esclarecida, uma espécie de vanguarda, do político ao erótico. Um estudo recente indicou que os universitários viam como normal umas bofetadas no namoro…

Os hábitos sexuais têm mudado?
Nem por isso, porque normalmente quem está na universidade pertence a um estrato sócio-económico mais favorecido e informado, pelo que têm uma entrada mais gradual na sexualidade e uma panóplia de comportamento mais alargada. Nas camadas mais desfavorecidas ainda há uma noção de que sexo é coito. Conforme se vai subindo nos níveis educacionais há uma visão mais alargada. Mas as diferenças têm vindo a diminuir.

Os estudantes são hoje mais conservadores ou liberais?
Há de tudo. A seguir ao 25 de Abril era a festa, a todos os níveis. E nos universitários houve uma febre de experimentação, quase um certo medo de não se estar a aproveitar a liberdade também a nível erótico. Depois houve um movimento em sentido contrário. Encontrei duas ou três gerações claramente mais conservadoras. Neste momento, não se pode tomar uma posição definida. Nas minhas aulas ouvi todo o tipo de discursos: pessoas eufóricas em termos de actividade sexual e gente a assumir com tranquilidade que queria casar virgem ou ter uma relação estável com uma única pessoa. Essa pluralidade é uma vantagem. Quer dizer que se é menos vítima dos pares ou da sociedade em geral. É bom não esquecer que vivemos numa sociedade de consumo que rapidamente passou do 8 para o 80. Antigamente, era-se muito bem compostinho. Hoje, em certos sítios, pensa-se duas vezes antes de dizer que não se é um D. Juan ou uma ninfomaníaca.

O que distingue os estudantes actuais e as suas práticas sexuais?
Encontra-se uma maior liberdade de comportamentos e sintonia entre os dois sexos. O que não significa o desaparecimento do duplo padrão. Há mais raparigas a ter comportamentos semelhantes aos dos rapazes, mas elas fazes e calam, enquanto eles fazem e publicitam. É o método clássico de defender a virilidade. Aos homens normalmente não basta fazer, é preciso que os outros homens saibam que eles fizeram.

Essa é a grande novidade em relação a outras gerações: as mulheres estão mais desinibidas?
Seguramente. E não só no fazer, mas também na iniciativa. Tenho 30 anos de clínica e nos últimos 10 comecei a receber homens que se sentiam ao mesmo tempo contentes e incomodados porque as raparigas se atiravam a eles. Por um lado, esfregam as mãos porque lhes saiu a sorte grande, por outro, sentem-se desconfortáveis porque era suposto serem eles a tomar a iniciativa. Outras questões, como o swing, verificam-se não tanto entre os estudantes, mas entre os 30 e 40 anos, indiciando a necessidade de novos estímulos perante uma eventual monotonia sexual.

Actualmente, os estudantes também ficam mais tempo em casa dos pais. Isso influencia a sua actividade sexual?
Muitos ficam porque não têm autonomia financeira, mas também há quem fique por comodismo puro e duro. No entanto, a posição dos pais também mudou, nomeadamente em relação às raparigas. Estão em casa dos pais e, ao fim de semana, vão para o apartamento do namorado, ou dormem fora regularmente. Isso já não é um cataclismo, como noutros tempos. É um negócio magnífico: cama, mesa e roupa lavada sem liberdade cortada.

Como explica que os comportamento de risco sejam tão elevados entre os estudantes, incluindo uma grande taxa de incidência do HIV?
A medicina continua a ter uma visão muito curativa e pouco preventiva. A nossa primeira ilusão foi o paradigma da informação. Pensámos que se todos estivessem informados não haveria comportamentos de risco. Foi um falhanço terrível. Também se ouve raparigas dizer que se falarem em preservativos os rapazes vão pensar que têm muita experiência e não gostam. Os rapazes, por seu turno, têm medo de puxar do preservativo porque elas vão pensar que eles vinham preparados para isso. Com alguma frequência diz-se, e esse é o mecanismo psicológico mais interessante, que não nos conhecíamos suficientemente bem para falar sobre o assunto. Vivemos numa sociedade em que a intimidade física antecede a intimidade psicológica.

Recebe muitos estudantes nas suas consultas?
Sim, e por uma razão triste. Num país em que nunca houve uma verdadeira educação sexual, às vezes recebo estudantes que apenas vão fazer duas ou três perguntas. Ao fim de dez minutos agradecem e querem ir embora. O que me coloca um problema ético, porque eles pagam uma consulta de 45 minutos.

Quais são as perguntas mais frequentes?
Por exemplo, se ter ejaculações nocturnas é normal. A um rapaz acontecia-lhe com frequência e começou a perguntar-se se seria normal. Não tinha coragem para falar com outras pessoas e portanto veio falar com um especialista. Num país civilizado uma ejaculação nocturna devia ser encarada com tranquilidade desde o início da adolescência.

Que outras dúvidas surgem?
Se têm problemas de disfunção eréctil, a que erradamente chamam impotência, porque houve um falhanço. Nestes casos, é possível ouvir descrições fantásticas sobre por que razão não se teve uma erecção. Fala-se de um encontro em que o rapaz não estava muito atraído pela rapariga e no fim aquilo não funciona. O problema é que as pessoas acham anormal não ter funcionado.

A performance é muito valorizada?
Sobretudo a masculina. Supostamente, o homem está sempre pronto. É uma visão errada e deprimente, segundo a qual os homens são escravos da sua testosterona. Ou que as raparigas coitadinhas só querem sexo se amarem muito e com casamento previsto. Há mulheres que querem sexo puro e duro e mais nada.

A homossexualidade é bem aceite no ensino superior?
As pessoas estão mais abertas a outras orientações sexuais, mas continua a haver discriminação. Recentemente uma rapariga foi sovada numa escola por causa da sua bissexualidade. Ainda recebo cartas com pessoas a perguntarem se podem falar comigo, porque não têm mais ninguém. Esta é a face negra. A mais brilhante é receber jovens, muitas vezes universitários, que vêm ter comigo e dizem que são homossexuais e que é uma questão pacifica, mas que os pais ficaram de cabelos em pé. E pede-me que fale com eles. Porque os pais também têm de fazer o luto, são apanhados completamente de surpresa, sonham com netos e outras coisas. É preciso respeitar o seu sofrimento e explicar-lhes que não é o fim do mundo.

Fala muitas vezes da banalização do sexo. Porquê?
Uma coisa é liberdade de opções, outra é quando o sexo se torna uma espécie de necessidade fisiológica. É uma visão do sexo que torna mais difícil a valorização de uma relação erótica na sua plenitude. Por isso está tão na moda o tema da dependência sexual, com o sexo a ser utilizado não como veículo privilegiado de comunicação mas como ansiolítico ou antidepressivo. Uma pessoa está mal, sexo, a pessoa está com medo, sexo.

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