A fabulosa determinação de Rita Redshoes (entrevista)

Rita Redshoes

É compositora e intérprete. Foi estudante do ISPA e da Escola Superio de Música do Instituto Politécnico de Lisboa

Foi estudante de Música e de Psicologia. Desiludiu-se com a primeira, reencontrou-se com a segunda. Pelo meio, aprendeu a redefinir objectivos e a partir imediatamente para a luta. O percurso universitário de Rita Redshoes, uma das vozes mais destacadas da actualidade, tem uma única nota dominante: determinação. Mesmo quando um exame se revela mais difícil que um concerto

Tudo está bem quando acaba bem, diz uma conhecida peça de teatro de Shakespeare. No entanto, para Rita Redshoes, nascida em Loures, em 1981, o caminho até ao final nem sempre foi fácil. Depois de vários anos a lutar por aquilo que considerava um dos sonhos da sua vida (entrar na Escola Superior de Música), não resistiu ao choque de linguagens que teve. De um momento para o outro, viu-se sem chão e sem futuro. Ficou deprimida. Procurou ajuda. Parecia uma tragédia para quem, desde pequena, sempre mostrou tendência para as artes. Mas transformou-se numa epopeia em vários actos, cujos pontos altos são a licenciatura em Psicologia e, mais recentemente, o lançamento da sua carreira musical, com o disco Golden Era.

Com este álbum e com tantos concertos que tens dado, pode dizer-se que estás a viver uma Golden Era?
Sim, de certa forma… Não que alguma coisa tenha mudado na minha vida ou na minha cabeça. Mas ter tornado real a possibilidade de tocar e cantar, e ainda por cima com uma boa receptividade, faz com que esteja, de facto, a viver um período dourado. Se calhar, para o público, aconteceu tudo rapidamente. Para mim não. Foram quase oito anos a trabalhar neste disco.

É um sonho tornado realidade?
E também a minha auto-realização. O que acaba por dar sentido a tudo o que fiz. Pode parecer um pouco dramático, mas a música é muito importante para mim. Passo 24 horas de cada dia a ouvi-la, a interpretá- la e a pensar nela. Nesse sentido, assemelha-se a um mundo privado, a que poucas pessoas tinham acesso, que de repente se abriu.

E é fácil viver-se com a realização de um sonho?
Não posso dizer que seja uma pessoa atenta ao exterior. Centro-me mais no que se passa dentro de mim, no que ainda posso fazer, da forma mais perfeccionista possível. Realizar um sonho tem a ver com isso. Antes do lançamento de Golden Era, estava inquieta porque não sabia se viria a realizá-lo, nem se iria ter sucesso para poder continuar a tocar, que é o meu objectivo. Agora, quando me sento no sofá à noite, tenho a calma de ter cumprido pelo menos essa parte. A inquietação, porém, não diminuiu e chama-me a atenção para coisas que desconhecia. Sou uma pessoa ambiciosa e gostava de conquistar outros sonhos, porque sei que me vão fazer feliz.

Que outras conquistas são essas?
Gostava de poder tocar em mais sítios, não só em Portugal, e que o disco também fosse vendido noutros países. No fundo, fazer disto a minha vida. Andar pelo mundo, porque gosto muito de viajar.

Olhando para trás, consegues descobrir o segredo do teu sucesso?
Talvez a honestidade, na vida pessoal e profissional. E este é um disco muito honesto. Nunca me passou pela cabeça optar por um determinado som para vender mais. O ponto de partida nunca pode ser esse, tem de ser um mundo interior.

Quando é que percebeste que esse mundo interior passava pela música?
É a história que se conta muitas vezes: desde pequenina que gostava de música. Tocava, cantava e dava grandes secas à minha família com performances. Era, como diziam os meus pais, uma criança virada para as artes. A certa altura, achei que queria ser bailarina, e acabei por estudar ballet durante oito anos. Depois houve um período em que não estive ligada a nada. Até que o meu irmão comprou uma bateria, o que começou a mexer comigo. Sempre que ele não estava em casa eu tocava. Nessa época, também havia um grupo de teatro na minha escola, que fazia peças muito giras. Não pensava ser actriz, porque sou tímida para falar em público, mas como sabia tocar achei que provavelmente me aceitariam. Foi o que aconteceu. Fiz a banda sonora de um espectáculo. Na primeira vez que toquei em público, pensei: «Hum, isto é muito giro». Percebi que havia ali algo que podia explorar, mesmo não sabendo como. Mais tarde, num ensaio da banda do meu irmão [Atomic Bees], o vocalista faltou. Como sabia as músicas todas de cor, substituí-o. E fui ficando. A partir daí, dos 14 anos, nunca mais deixei essa ideia. Aliás, sou muito obstinada e convenci os meus pais a inscreverem- me numa escola de música.

Tiveste essa formação profissional no secundário, mas depois a passagem pela Escola Superior de Música não correu bem. Porquê?
Por um lado, como comecei tarde a estudar música, tive de fazer um esforço redobrado no secundário. E na verdade nunca consegui acompanhar o ritmo. Por outro, o ensino da Escola Superior de Música do Instituto Politécnico de Lisboa (ESM) era demasiado fechado para mim. Eu vinha da pop, um universo mais livre e com mais piada. Mesmo tendo estudado canto lírico no secundário, senti um choque de linguagens, como se estivessem a formatar-me. Nunca me habituei a essa sensação. Foi uma decisão complicada a que tomei, porque tinha sido muito difícil entrar na Escola Superior de Música, estudar e fazer em quatro anos o trabalho de sete. Musicalmente, foi um processo muito produtivo, porque compus imenso nessa altura, mas também muito conturbado.

Foi uma coisa má que acabou por se tornar boa?
Sim. Fiz a minha escolha e desisti da Escola Superior de Música. Naquela idade complexa dos 18 anos, no final da adolescência, foi um bocado complicado não ter seguido o caminho que pensava ser o melhor para mim e ver-me obrigada a optar por outro. Marcou-me muito. Mesmo assim, nunca larguei a ideia de trabalhar na música.

Uma prova de fogo à tua determinação.
Sobretudo com todos os meus amigos a estudar e eu sem saber o que fazer. Tive a sorte de o David Fonseca ter ouvido o disco da banda do meu irmão. Gostou e convidou-me para integrar a banda do seu projecto a solo. Foi muito importante para mim e um momento de viragem.

Este percurso fez de ti uma militante antimúsica clássica?
Não, de todo. Num certo sentido, o que eu aprendi na formação clássica ainda me serve para muita coisa, como resolver problemas técnicos, vocais ou de composição. Embora eu não recorra a essa aprendizagem conscientemente, sei que me abriu o leque de possibilidades. As pessoas devem estudar o mais que conseguirem, sem, no entanto, abdicarem da sua identidade e autonomia. É o que faz a diferença.

Como surgiu depois a Psicologia?
Com a desistência da ESM, fiquei deprimida, como qualquer adolescente que não vê um futuro à frente. Mas ao mesmo tempo, não me deixei acomodar. Fiz psicoterapia, pois precisava de falar, e apaixonei-me pelo processo, que culminou num enorme enriquecimento pessoal. Quis saber mais do método, como é que a minha psicóloga chegava àquelas conclusões e era capaz de me analisar daquela maneira. Aos 21 anos, depois de ter tirado um pequeno curso de marketing musical, entrei no Instituto Superior Psicologia Aplicada (ISPA).

E como era o teu dia-a-dia de estudante?
Até ao 4.º ano tive sorte porque só tinha concertos com o David Fonseca. O meu projecto ainda não estava a andar. Consegui embrenhar-me nas duas coisas sem as prejudicar. Houve alturas mais complexas, em particular com as frequências, mas tive colegas muito simpáticos, que compreendiam a minha situação e me ajudavam com os apontamentos. Aliás, fiz bons amigos na faculdade, o que por vezes é raro.

Cantavas em festas?
Não. Só tocava com o David e trabalhava nas minhas músicas quando podia.

Nunca descobriram o teu talento?
Não… Porque eu também não me expunha.

Pela tua experiência, é mais difícil fazer um exame ou dar um concerto?
Depende do exame… Se for de Estatística, o mais difícil é mesmo o exame. Não é fácil responder, mas os concertos dão-me muito mais gozo. De longe. Por mais difíceis que sejam vários aspectos dos concertos, e alguns são, há sempre um equilíbrio entre dificuldade e prazer que me dá vontade de fazer mais.

Acabaste recentemente o estágio. A experiência correspondeu às expectativas?
Plenamente. Coincidiu com o período de lançamento do disco e de grande exposição, pelo que comecei com algum receio, pois não sabia como as pessoas iam reagir. Claro que há muitos psicólogos que são figuras públicas, mas queria que a minha pessoa interferisse o menos possível. Foi uma experiência muito curiosa e interessante, um apanhado do que tinha aprendido em quatro anos e também a altura em que estive mais próxima do que me levou a tirar o curso de Psicologia. Na verdade, é preciso saber muito para se ser bom nesta área. Ajudou-me ter vivido algumas coisas. Não sei se vou exercer, não é algo que tenha presente neste momento, mas é um grande desafio. É pena que nas conversas do dia-a-dia haja uma ideia errada da terapia. É tudo menos esotérico.

E a música também é terapêutica?
Há estudos que dizem que sim, na linha da musicoterapia. Não é, contudo, uma área que me interesse particularmente, porque como tenho uma ligação à música acho que não conseguiria separar as coisas. Mas para mim, de certa forma, é uma terapia, como provavelmente para muitos músicos. Talvez por ter um sentido transcendente, que mexe com a criatividade ou com um imaginário menos real e pragmático. Tudo o que nos eleva um bocadinho tem sempre essa componente terapêutica, libertando-nos para explorar outras coisas.

A Universidade ensinou-te alguma coisa que aplicas na música e vice-versa?
Acima de tudo, rigor, métodos de estudos, concentração e separação das águas.

Há quem passe muitos anos na faculdade e nunca aprenda como é que isso se faz.
Também não tenho uma fórmula. Mas aprendi a separar as minhas actividades. Olhava para a agenda e pensava: «Quero fazer estas duas coisas, sem as comprometer ». Quando começava uma, só pensava nela, deixando a outra de lado. Esse rigor e essa precisão foram-me muito úteis.

Porque a música é essencialmente isso, não sair da nota?
Claro. Além disso, um músico não se pode cansar de tocar 20 vezes a mesma canção. De outra forma, não pode ser músico. A repetição e a separação de campos são elementos muito importantes. É como tocar piano a duas mãos, cada uma a fazer o seu trabalho, ou cantar e tocar bateria ao mesmo tempo. O que aprendi rapidamente foi: «Se tenho uma frequência, vou estudar para ela, só a seguir vou tocar». O curso também me permitiu ter algo além da música.

Qual é agora o teu escape?
Não tenho. É terrível. Acordo a meio da noite a pensar em e-mails ou na preparação dos espectáculos. Neste momento, estou muito centrada na divulgação do disco, não posso estar dividida.

E de onde vêm os sapatos vermelhos?
Têm a ver com o imaginário do Feiticeiro de Oz, com algo ingénuo e sonhador, e com o lado mais feminino dos sapatos vermelhos, sexy e um bocadinho rock n’ roll. Uma música do Bob Dylan aborda precisamente isso, ao falar de uma personagem que age como uma mulher, mas depois chora como uma menina. Também eu salto de mulher para menina, tenho isso tudo dentro de mim. Interessa-me explorar esses universos imagéticos distintos.

O que sobressai nos teus telediscos.
Precisamente. Mais do que me esconder atrás deles, estes são elementos que mostram a forma como componho e vejo as minhas músicas, que passam muito por imagens. Não há propriamente uma história, mas um ambiente. Um conjunto de referências, cores e situações que fazem parte do meu universo musical.

Comentários

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Re: A fabulosa determinação de Rita Redshoes (entrevista)

Um caso inspirador da determinação e vontade de seguir o sonho! Sou da mesma geração e compreendo tudo, em particular a capacidade de não nos moldarmos a tudo a que a sociedade nos impinge sem sucumbir aos nossos valores…

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