Fernando Alvim: aulas, orais e rock n’roll (entrevista)

Gosta mais de aprender do que de ensinar e pensa fazê-lo ao longo da vida. Não desdenha o ensino superior, por onde passou sem grande entusiasmo, mas prefere o conhecimento que se pode adquirir ao longo do caminho. A Aula Magna foi visitá-lo à Antena 3, onde anima o programa Prova Oral, e acompanhou-o ao ginásio. Descobriu um antigo estudante que não brincava em serviço. Nos exames e nas eleições…

Falta menos de uma hora para começar mais uma edição da Prova Oral, o programa que dinamiza de segunda a quinta, a partir das 19h, na Antena 3. Mas não aparenta nervosismo. Os Moonspell já lá estão, como banda convidada, mas o apresentador ainda tem tempo e disponibilidade para receber a Aula Magna. Fala depressa, como se a urgência se tivesse entranhado na sua personalidade. Fernando Alvim é daqueles que tem como lema de vida «Fazer». E não hesita em pôr mãos à obra.

Nasceu em Vila Nova de Gaia, em 1974, e desde cedo descobriu uma paixão pela rádio. O pai reconhecia-lhe um comportamento obsessivo e Fernando Alvim lá se desdobrava em múltiplas tarefas, primeiro achando que era de feitio, depois percebendo que talvez fosse mesmo de génio. Aos 18, já profissionalizado na rádio, criou o Festival Termómetro, de onde saíram algumas bandas que deram que falar. É director da revista 365, que advoga um ano cheio de heterodoxia, com muita cultura à mistura, e tem créditos firmados na televisão e no humor e em tudo o que se mete. A vida, para ele, é uma disciplina em que se aprende todos os dias.

Radialista, jornalista, promotor cultural, humorista, figura da televisão, agitador cultural. Como te apresentas?
Bem, não referiste todas as actividades, como por exemplo estafeta.

Estafeta?
Sim. Quando vou entregar o correio de cada número da revista 365, que é algo que eu gosto muito de fazer, nas recepções das agências de publicidade dão um cartãozinho que diz «estafeta». E é precisamente o que eu sou naquela altura, pois é a missão que estou a desempenhar.

Num mundo em que se fala tanto da especialização, tu contrapões um perfil multifacetado?
Já não tenho a certeza se o mundo apela a essa especialização. Hoje provavelmente valoriza-se mais o multitasking. O que, como se sabe, era algo que estava reservado às mulheres, que em relação ao homem têm muito mais capacidade para isso. Mas agora temos de o desenvolver. Porque não me parece que seja muito produtivo, hoje em dia, saber apenas um coisa. Quantas mais melhor.

E como desenvolver tantas actividades ao mesmo tempo?
Se calhar há quem pense que sou muito organizado e que tenho uma vida exemplarmente gerida. Mas não. Às vezes acontecem-me coisas que eu próprio fico espantado como consegui desenvencilhar-me delas. No dia em que estou a dar esta entrevista, confundi as datas e percebi que apenas tinha 30 minutos para escrever uma crónica. Afinal não era para o dia seguinte. Era para já…

Qual é o segredo dessa produtividade?
A chamada pressão alta. Comigo funciona muito bem. Sei que vou ter de o conseguir. E faço. Mas não gosto de fazer as coisas a martelo, daí que estas situações também me incomodem.

Em todas essas actividades, é possível encontrar um denominador comum?
Não sei, talvez uma anarquia desorganizada… Invariavelmente, nunca faço o que devia para a combater. No entanto, o denominador comum talvez seja a vontade de fazer coisas. Não me deixar intimidar pelas dificuldades que surgem, nem pela falta de dinheiro. É uma tarefa viciante.

É o postulado da criatividade?
Exactamente. Cheguei à conclusão que, de facto, para fazer as coisas, por maiores que elas sejam, preciso de boas ideias, muito mais do que de bons financiamentos.

Comportamentos obsessivos

O mais surpreendente no teu percurso é não só fazeres muitas coisas, mas teres começado muito cedo, logo aos 17.
Na verdade, comecei aos 13 e profissionalizei-me aos 17. Pelo que dizia o meu progenitor, sempre fui uma pessoa obcecada e obsessiva. Durante muito tempo pensei que era uma característica má. Pensava que tinha de deixar de o ser. Só depois percebi que também podia ser uma qualidade.

Como surgiu a paixão pela rádio?
Ao lado da minha casa havia uma rádio e tinha uns amigos que iam para lá diariamente. Era o tempo em que só se pensava em jogar futebol e andar atrás das raparigas, algo que continuo a fazer até hoje. Mas juntei a isso a necessidade de fazer rádio. É algo de que gosto mesmo muito. E acredito que a rádio é uma base que me proporciona uma série de competências que outros meios não me possibilitariam.

Como por exemplo?
O conseguir resolver problema à última da hora. A minha experiência radiofónica já me salvou muitíssimas vezes. O facto de quase ninguém que trabalha na rádio admitir o silêncio, e de saber lidar com isso e de falar, foi-me útil muitas vezes.

Não convives bem com o silêncio?
Nada, de tal modo que não o admito. Se numa mesa de jantar de quatro pessoas, todos deixarem de falar, garanto-te que serei o primeiro a quebrar o gelo. Independentemente do que disser. O silêncio a mim impressiona-me.

Nesse caso, como é que alguém que preza uma vida de agitação vê aquelas pessoas que passam uma vida inteira na universidade, a estudar, no silêncio das bibliotecas e dos arquivos?
Muito bem. É como encarar os filhos dos outros. Desde que não sejam meus está tudo bem. Mas encaro bem. Também estive no ensino superior e sei o que isso é. Frequentei dois cursos.

Dois?
O primeiro foi um tiro um pouco ao lado: Gestão internacional de exportação. Foi um curso que deixei a meio. Mudei-me para Engenharia publicitária e de marketing. Mas quando estava no final do curso tive uma proposta irrecusável para vir para Lisboa. Na altura, achei que um curso e uma faculdade podem manter-se durante anos e anos. Uma oportunidade não. Aproveitei a oportunidade que me estava a ser dada e até agora posso dizer que nunca me arrependi, nem senti falta de concluir o curso.

Voltar às aulas não é uma prioridade?
Ciclicamente vou-me formando, fazendo muitos workshops de variadíssimas áreas, desde escrita criativa a planeamento cultural. É o que está a dar. Agora um curso inteiro? Não me parece. No entanto e apesar de eu próprio dar alguma formação, sobretudo na área da rádio, gosto muito mais de aprender do que de ensinar. É mais lucrativo aprender.

Senhor presidente

Como era o Fernando Alvim estudante universitário?
Muito marrão.

Isso poderá surpreender alguns fãs.
Pois é. Mas era mesmo marrão, ao ponto de me enclausurar dias inteiros em casa a estudar. O meu objectivo e a minha norma sempre foram dar o meu melhor. Se percebesse que tinha estudado, já não me afectaria se depois a nota fosse má. O que me chateava, e também me aconteceu, era ver uma nota má justamente porque não tinha estudado. Era algo que não gostava que me acontecesse, mesmo sendo um aluno mediano.

Tinhas algum método de estudo?
Nunca. Em nenhum momento tive métodos de estudo ou de trabalho. O que eu fazia era estudar. Ficava em casa, fechado, durante vários dias. Ninguém me via.

Fazias apontamentos, sublinhavas livros?
Fazia apontamentos, passava mais de metade do meu tempo a fazer resumos. Passava ali os meus dias. Foi uma coisa muito tortuosa. Sofri muito a estudar. Enquanto estudante, foram mais as horas de sofrimento do que as de verdadeiro prazer. Não ia para a escola passear os livros.

Também te metias nas associações de estudantes?
Cheguei a ser presidente da AE da minha escola. Mas daquilo que eu mais gostava sinceramente era dos torneios de futebol. Eu vivia para isso. Depois estudava para tirar umas notas que dignificassem minimamente o meu nome.

Eras uma espécie de futuro jogador da NBA que precisa de ter boas notas para poder continuar a jogar?
Era um bocado isso. Aliás, na minha equipa jogava o Pedro Emanuel [ex-jogador do Futebol Clube do Porto], hoje em dia uma referência futebolística. Ele era o defesa e eu o atacante. Não há dúvida de que o influenciei.

Que rumo deste à AE?
Foram bons tempos. E uma actividade que eu exerci um ano. Lembro-me que ganhei as eleições devido a uma promessa eleitoral que passava por garantir um cacifo a cada aluno. Na altura dava uma série americana na televisão, o Beverly Hills, 90210, em que todos os estudantes tinham um. Muitos consideraram que era uma grande ideia e deram-me o seu voto de confiança. Escusado será dizer que não houve cacifos para ninguém.

Então a tua década de 90 não foi contra o cavaquismo, mas sim a favor do cacifismo?
Exactamente. Cacifismo. É um termo muito bem aplicado. Hoje em dia estou muito arrependido e peço desculpa aos estudantes pela promessa eleitoral não cumprida.

Mas também participavas nas grandes contestações políticas da época?
Sim, fui às manifestações da PGA e essas coisas. Mas não sabia o que estava lá a fazer. Ia porque todos iam. Estava lá a reivindicar um direito, mas basicamente não sabia porquê. Aliás, eu acredito que a maioria das pessoa que vai a essas manifestações não sabe por que razão está lá.

Esse é o problema do Ensino Superior: as pessoa não saberem o que lá estão a fazer?
Poderá ser um deles, mas de certeza que não é «o» problema. Não sei. No entanto, acredito que muitas vezes as plataformas estudantis são usadas como trampolim político. Há um jogo viciado, o que não é bom. Contudo, quando a liderança estudantil é encarada com seriedade, parece-me que é muito bom ter bons líderes a fazerem coisas em prol da universidade. Por isso é que há universidades mais fortes e outras mais fraquinhas.

Estudantes mais completos

Através do Prova Oral, da Antena 3, contactas com muitos estudantes. És daqueles que defendem que «no meu tempo é que era»?
Não sou nada saudosista. Desconfio sempre das pessoas que falam muito do passado. Normalmente quer dizer que estão sem presente e com muito menos futuro. Nunca uso essa expressão. Até porque nunca achei que o meu tempo fosse assim tão bom.

Mas que imagem fazes dos estudantes do ensino superior?
É uma imagem muito boa. O Erasmus é cada vez mais utilizado. E a mentalidade estudantil é menos estanque. Os estudantes perceberam que é preciso ir lá para fora e conhecer novos mundos. A Internet também veio ajudar. Sente-se que as mentes estão mais abertas. Quando isso acontece, o futuro só pode ser mais promissor. Os estudantes são hoje em dia mais completos.

Em que sentido?
Além de estudarem, têm uma vida. Bem, há quem tenha uma vida sem estudar, mas não falo desses. As pessoas já perceberam que não basta ter a chamada inteligência tradicional. Também é necessário uma inteligência emocional e social. O que vale ter uma grande média de curso e depois ser um nerd ou não ter amigos, nem saber fazê-los? Tão pouco saber criar bom ambiente numa empresa? O que vale contratar uma pessoa com estas características? Só para a manter sempre isolada.

Ou seja, ser estudante e preparar futuro profissional é actualmente mais difícil?
Pois é. Mas é a lei da vida. Devemos premiar as pessoas mais completas.

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