A Vida (Quase) Secreta Do GTN

Este texto pertence à secção de Jornalismo livre, onde qualquer estudante, docente ou funcionário do ensino superior pode publicar novidades, entrevistas e outros textos jornalísticos.

Marlon Francisco

É Presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH)

Francisco Belard

É estudante da Universidade Nova de Lisboa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e Foi Protagonista do Filme Guerra Civil que Passou no Indie Lisboa

Nesta reportagem procurei investigar o funcionamento e o contexto das actividades académicas/extracurriculares, nomeadamente o Grupo de Teatro da Faculdade Nova de Lisboa. Pretendo com isto, dar a conhecer aos leitores o funcionamento e a orgânica deste núcleo estudantil de actores amadores, no panorama do Ensino Superior.

Primeiro Acto

A noite veste-se de inverno, a faculdade não reconhece ninguém no seu escuro, só uma torre iluminada para orientar a intenção que nos encaminhou até aqui, acompanhar aqueles que já se habituaram em descer até à cave do menos quatro na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas(FCSH).

Reúnem-se na cantina da escola para jantar, antes de se dirigirem para as instalações. Aqui falam de tudo, alunos e trabalhadores-estudantes de áreas diferentes, faculdades diferentes, que coincidem em tudo nesta hora. O relógio diz ser 20:45, é visível o atraso nas suas caras de quem se despacha em acabar o que sobra da sobremesa, há que começar o ensaio.

“São pessoas que querem estar aqui” – diz Adriana Aboim, 31 anos, Directora Artística do Grupo de Teatro Amador da Universidade Nova de Lisboa, mais conhecido por GTN.

Sem qualquer intenção que provenha do intuito remunerado, são pessoas que escolheram estar ali, investir o seu tempo no teatro amador, ao contrário das companhias profissionais de teatro, as pessoas investem no que o GTN lhes proporciona sem esperarem nada em troca.

Os elevadores demoram a chegar, a alternativa chega pelo vão de escadas. Quase uma alusão ao espírito da “Dívina Comédia” de Dante, fugir ao domínio que a sociedade incute, uma catarse à sua rotina citadina é nos sugerida, enquanto descermos cada vez mais a baixo, ficamos automaticamente sem rede nos telemóveis, uma parque de estacionamento que reconhece conforto nas pessoas que o preenchem com algo muito mais do que carros, rapazes e raparigas cheios de energia que aqui se sentem livres, num exercício que as coloca em contacto com a pessoa que são na realidade, algo mais do que mostramos todos os dias em sociedade.

Que esconderijo é este que apenas poucos descobriram? Uma paz autónoma e restrita é a atmosfera que se respira.

“Aqui estamos à parte do mundo” – desabafa Sara Leite, 18 anos, estudante de Antropologia do 2º ano da FCSH.

Há trabalho a ser feito, estamos em pleno ensaio enquanto falo com uma das actrizes que englobam o núcleo de teatro, outros montam o sistema de som, transformando o menos quatro na mais recente discoteca alternativa de Lisboa. Ouço atentamente o relato da Sara, enquanto me confessa que este grupo é diferentes de outros grupos académicos amadores – “aqui a energia é única, eu própria não consigo explicar o sentimento que se vive, quando descemos somos outras pessoas”.

Tento descobrir o que a motivou em procurar esta actividade, como se decide escolher o teatro para complementar um plano extracurricular. Não é porque sintam vontade de seguir o teatro, chegam a descobrir muito mais do que isso; nos 2 anos em que já participa no grupo, diz que todos aprendem a pensar melhor, ver o mundo com outros olhos, não só pela perspectiva clássica de como as coisas se contam ou constroíem, ainda que cada um de nós tenha a sua experiência muito própria de sentir o GTN.

“O GTN devia ter mais divulgação”, mas não sabe até que ponto o segredo do sucesso da actividade não resulta da pouca visibilidade que mantêm. É neste seguimento que procurei falar com os alunos da faculdade, e ver até que ponto as pessoas sabem ou não o que é o GTN, ou mais simplesmente, se sabem que existe um Grupo de Teatro na faculdade.

Fui para o pátio da faculdade colocar a seguinte questão aos alunos –

Sabe o que é o GTN? Alguma vez ouviu falar do Grupo de Teatro da Nova?

Falei com 80 alunos, que circulavam em ambos os polos da Universidade Nova na FCSH, aproximadamente dez pessoas sabiam que a actividade existia, já haviam colaborado de alguma forma, assistido a algum espectáculo ou estão em contacto com alguém que conhece ou participa. Muitos são os que não sabem que actividade existe, e foram os primeiros a questionar – “Se existem, porque é que nunca ouvimos falar de nada?”

A estatística não foi elucidativa o suficiente, pelo contrário, levantou ainda mais questões, e para encontrar respostas decidi ir falar com o Presidente da Associação de Estudantes (AE), Marlon Francisco de 21 anos.

Chego a um dos cantos mais atarefados da faculdade, a AE, onde pude interpor questões que me ajudem a compreender como funciona o GTN. Descobri que o núcleo de teatro na universidade, existe desde a década de 90, mas nenhum dos encarregados originais que criaram o GTN se mantiveram, as participações são volúveis, renovam a cada ano lectivo, hoje ninguém sabe responder ao certo quando o momento exacto da sua criação.

“A cara do GTN é hoje a Adriana” – comenta Marlon, preparam este ano com maior preocupação, já faz dois anos que não participam no Festival

Anual de Teatro Académico de Lisboa, mais conhecido por FATAL, entre 6 a 28 de Maio, competindo no âmbito do teatro amador que visa promover e divulgar o teatro universitário português. Estando igualmente um prémio monetário em jogo, que ajudaria a desenvolver futuros projectos. Neste momento a AE pretende colocar o próprio GTN como uma das pedras fundamentais na candidatura ao IPJ permitindo que este receba verbas estatais.

Tal permitirá um crescimento do grupo, bem como um relaxamento financeiro da AE.

O teatro universitário vive sempre de contribuições, e o GTN não é excepção, a AE é o mecanismo burocrático que cede as verbas necessárias na realização auxiliar à prossecução dos projectos, mas sem interferir nas escolhas de quem organiza o que se passa na cave do menos quatro. Não misturam opiniões, nem pressões são feitas para satisfazer as exigências propostas quando dinheiro é posto em causa, este é cedido ao teatro para desenvolverem o trabalho que os compete. As contribuições surgem através dos serviços de acção social, bolsas, contributos do reitor.

“Confio nas escolhas deles. São a actividade com maior sucesso da faculdade, ainda que a menos reconhecida, talvez seja esse o segredo.

A identidade do GTN construiu-se no menos quatro da cave, a ideia pode parecer pouco ajustada, não higiénica, não confortável, mas a identidade do GTN começou desde do início a romper com qualquer estereótipo associado ao teatro.

"O teatro não tem de acontecer num anfiteatro, ou auditório, o teatro acontece sempre onde quer que as pessoas estejam” – diz Marlon.

Segundo Acto

Agora que me sinto mais esclarecido, abandono a AE e a posição de imparcialidade do seu Presidente com maior consciência do que me foi transmitido, o espírito do GTN deve procurar satisfazer a sua ambição, procurando contrariar a quase tradição que realiza apenas uma peça por ano.

É hora de almoço, horas de ritmo mas que nem assim nos permitem por de parte o Inverno. O ritual é servido frio, onde aqueles que fumam procuram fazer as pazes com a chuva. Eu, um intruso suspeito, vigilante de quem aguarda pela companhia do meio-dia.

A cantina inunda-se de alunos, professores e auxiliares que apressam-se em satisfazer a urgência que quase não desfruta em nada um prato servido aos empurrões.

“O GTN não está escondido”, admite o responsável pela Produção do GTN, João Estevens, 23 anos, estudante de Economia da FCSH.

Privilegiam um critério de divulgação que ocorre internamente, acção que ajuda a poupar nos custos, recorrendo à colaboração da AE e de mais orgãos de comunicação da FCSH, nomeadamente o Jornal I-Nova.

Os resultados deste processo mostram, que nem sempre tem sido a melhor política, que fique por isso explicito que a falta de visibilidade não é mera opção estratégica.

No que toca a seleccionar participantes, procuram satisfazer as suas exigências tirando máximo partido das diferenças, isto é, nos últimos anos englobaram diferentes géneros de participantes, desde o meio universitário ao artístico (profissional ou não) a quem se destinam de preferência.

O GTN funciona na FCSH, mas aceita alunos (de qualquer estabelecimento de ensino) e não-alunos. Esforços são conduzidos procurando respostas de trabalho que se adequem aos participantes.

Um primeiro semestre de ensaios até as primeiras ideias se comecem a clarificar, introduzindo unanimidade no consenso que irá definir a peça de estreia no final do ano lectivo.

Neste momento, ainda não se conhece qual será o projecto a apresentar, apesar de já existirem uma hipótese consistente, a opção mais forte é a “Antígona”, de Sófocles.

Terceiro Acto

O tempo é mais pesado quando estamos dentro da faculdade, o que faz tudo parecer urgente, mas o curioso é sentir que o tempo não se propõe em cronometrar quem se empenha em descobrir novos horizontes, as recordações que não se deixam penhorar pelo ‘pós’ daquele ano, quando entramos pela primeira vez na faculdade, a amarga realidade ou doce ilusão das praxes, onde ninguém está cansado, com a recordação chega esse peso.

“Foi graças ao trabalho desenvolvido no GTN que percebi que quero seguir carreira na área do teatro” – confessa Maria Leite, 21 anos, ex-aluna da faculdade e ex-membro do GTN, propicia ao clima nostálgico a que nos propusemos.

Dois anos cheios de surpresas, que a fizeram aprender bastante, no GTN não se aprende só teatro, as pessoas ganham conhecimentos desde psicologia, filosofia, sociologia, artes, o grupo obriga a que se cresça intelectualmente.

Reconhece defeitos quando encara a pouca longevidade dos seus encarregados, no agregar do núcleo que orienta a formação e interesses específicos do teatro.

Remete para uma desfragmentação que vai desfiando esforços anteriores para aqueles que ficam, mas que também passam à linha da frente no passar do testemunho aos mais novos.

Conta-me que há uma exigência activa que apela à participação dos seus membros, e como a sua experiência a fez reconhecer o trabalho de um actor, que ultrapassa em muito o papaguear de texto que se verifica em muitos grupos de teatro.

“A investigação, o trabalho de mesa, a selecção de obras e a forma como estas são executadas é um trabalho conjunto de todo o grupo, guiado pelo encenador. Acho que o teatro académico é extremamente benéfico para a vida dos estudantes”.

Considera fundamental diversificar a experiência universitária que não recorra somente aos artifícios propostos no plano curricular, uma participação a cima da média ao nível universitário provem do desenvolvimento do espírito crítico, algo que o teatro ajuda a desenvolver.

Mais do que isso, a actividade no teatro torna-se uma excelente forma de desinibição, cria um à vontade no desenvolvimento das capacidades de interelação.

É neste processo que muitos descobrem um “novo teatro”, uma vez que o Teatro de que ouviam falar não corresponde em nada ao que julgavam ser.

Francisco Belard, 21 anos, ex-aluno de Ciências da Comunicação, e ex-membro do GTN, acabou por desistir do curso em que estava para se dedicar aquilo que seria a sua verdadeira vocação, ser actor.

Participou no GTN como actor durante 3 anos, actualmente ainda acompanha o processo de produção e encenação que se está a desenvolver este ano na faculdade.

“Entrar para o grupo pareceu-me uma decisão natural quando comecei o curso de Ciências da Comunicação na FCSH. Apesar de na altura eu não ir ao teatro com frequência, e achar que não me interessava o teatro que se fazia”.

Foi a vertente experimental do GTN, o facto de dar a conhecer um espaço não convencional ao teatro, atípico, como é a garagem da faculdade que reconheceu a não linearidade dos ensaios e de perseguir uma vertente no ramo do espectáculo performativo.

“O teatro não é só “aquilo”, nem só “isto” que estamos a fazer” – comenta.

Em boa parte, as razões descritas até agora terão sido o incentivo que bastou para que fosse estudar Teatro na ESTC, (Escola Superior de Teatro e Cinema) e também porque o grupo ocupava-lhe muito tempo de estudo, mais valia dedicar-se ao teatro em “full-time”.

Não reconhece o “teatro académico” como uma instituição, ou um todo. Francisco considera que cada grupo é um grupo, o GTN é diferente, tal como todos os outros. Logo, reconhece que cada grupo terá o devido reconhecimento dentro do empenho ao trabalho a que se dedicam, colhendo os frutos dos seus esforços e preparação.

Cada estudante é um estudante, e tira das experiências aquilo que precisa. Conhecer o GTN e aqueles que o representam quase me fez sentir como um deles.

Ao escrever esta reportagem, pude ao mesmo tempo, propôr um exercício que compromete diferenças e salvaguarda parecenças, entre a herança que acolhe futuros profissionais do teatro.

O veredicto ficou claro, segundo as palavras de Adriana que agora recordo num tom que compromete a despedida deste meu trabalho – “só não conhece o GTN quem não quiser, estamos aqui em baixo, todos são bem-vindos”.

Pretendem apelar ao incentivo que combate o mau hábito do desinteresse pela cultura, que ainda não ganhou a rotina que se familiariza com o gesto de sair de casa e ir ao Teatro. Através da faculdade pretendem chegar mais longe, mudando as mentalidades, que não conhecem, não se interessam, não procuram conhecer o que uma ida ao teatro pode proporciona.

Adriana não sabe por quanto mais tempo dará a cara como Directora Artística, foram três anos de evolução, a trabalhar quase sempre com as mesmas pessoas, e talvez seja tempo de seguir em frente e evoluir, aprendeu muito com estas pessoas, pois considera que trabalhar com universitários amadores é uma das melhores experiencias no teatro.

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