Textos literários (ordenados pelos leitores)

Os textos estão ordenados de acordo com a classificação dada pelos leitores (todos os leitores podem votar).

Tu.

Tu, que estás aí, que não existes. Eu, que não sou nada e não creio existir. Serei eternamente aquela que escreverá em segredo Filosofias nunca antes escritas Ou escritas tão silenciosamente quanto as minhas E pensadas por mil almas que Pensam saber a imensidade da razão de ser dos seres, e do ser Se é que razão e seres coexistem de facto. Aparte de tudo o que me preenche este vazio Eu não sou mais que o vazio que preenche o tudo das coisas. Estou em cada partícula do espaço, Em cada partícula do ar que respiro, Em cada verso, em cada pensamento que se dissipa no tempo Esse Que o

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A Casa

“Dou a volta à casa toda, dou a volta à vida toda e é como se um desejo de a totalizar, a ter na mão.” Nela me revejo. Espelho de mim mesmo. Ervas em redor, da altura do meu afastamento, da dificuldade que tenho em regressar à minha vida.
Entro e o cheiro; fresco como a solidão, apaziguador como a morte. Demoro a reagir aos meus olhos, que me mostram a saudade como nunca a tinha visto. E queima. Terna imagem que rebusca o choro no mais íntimo de mim. Mas eu resisto.

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Crónica de um funcionário público para o dia do Entrudo

Na calçada e de sapatos quase gastos caminha

leva vestido os trapos para a mascarada

num dos bolsos o resto do pão duro do outro dia

e no outro a memória da réstia de uma mesada.

Da família

quase nem se lembra

desde que o obrigaram à mobilidade

que já nem sabe se está no norte ou no sul

ou se afinal a terra é plana.

Lembra-se só de algo que ouviu:

o tipo que nos governa foi um grande amigo das farras

que só aos trinta e poucos anos se formou

por isso a frase “alunos não sejam piegas”

ou então arrependido dos gestos, em frases mud

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Direito a votar

encontrar-te-ás sozinho à porta do delírio,

terás os cognomes da espera e o direito a votar,

comprarei um passe para visitar o museu das tuas obsessões,

saberás fazer-me voltar a horários fixos,

tirarei notas de rodapé com pormenores complicados e referências exaustivas,

farei esboços dos teus sorrisos,

apunhalar-me-ás com ideias universais e alegres

      a caminho das coisas particulares e tristes,

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Untitled.

Estava na paragem à espera do autocarro, a ler Caim, de José Saramago, esse grande senhor, não o senhor de que o autor fala com uma ironia, uma crítica e um sarcasmo subtilmente geniais, mas sim esse grande senhor que era Saramago, uma senhora com um ar simpático aparece e diz, Menina, posso falar um pouco consigo, enquanto espera pelo autocarro, ela tinha um ar simpático, eu acho as senhoras idosas extremamente fofinhas, apesar de saber que era uma testemunha de jeová não disse que não, e aí se deu o momento do dia que me vai servir de reflexão para o resto da semana.

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Fingimento.

Finge.
Finge que nasces, para fingires que existes.
Finge que cresces e aprendes.
Finge que estudas para um dia puderes dizer a fingir que estudaste.
Finge saberes para te deixarem fingir ser alguém.
Finge parecer, finge até ser.

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Não tive Tempo

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo! Para deixar de ter pressa que passasse o tempo; Para deixar que viesse o tempo de ter tempo, De esperar e desesperar para ter tempo, Para viver o momento Para chorar por dentro, Não tive tempo, meu amor, não tive tempo…

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo! De reparar que as palavras vieram e foram Que morreram e renasceram; Para deixar que fossem apenas gotas de água por cima de mar, Ar e vento E pétalas por cima de rosas, Não tive tempo, meu amor, não tive tempo…

Não tive tempo, meu amor, não tive tempo Para pensar bem e sa

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Passo Noturno

Mais uma vez estou junto
A tua janela, Ó Poeta.

Imagino em mim teu olhar
De menino, contemplando através
Dela, hoje, esta Lisboa, qual uma
Criança, agora adormecida.

Há crianças escorregando defronte
A tua janela, Ó Poeta;

Sorrindo a sua alegre infância,
Brincam,regozijam… e há neles
Todo um mar futuro debaixo
deste firmamento estrelado.

As 21:58 min no Largo do Carmo.

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Para o D

Descansa da longa batalha que tens travado nesse longo mar,

Meu irmão de letras e de muito mais

Pois o que nos separa à nascença são bravas efemérides

susceptíveis a estrabismos banais.

E onde tu estás, já eu estive

e onde eu estive, também tu poderias estar.

.

O que interessa é que não andemos às arrecuas

E se o fizermos, que seja com novos sentidos e por novas ruas.

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Saudades

Não do que fomos,

nem queremos ser

neste mundo de adultos adulterados.

Saudades dos risos perfeitos,

das rosas

e dos pés descalços,

dos meninos soltos e envergonhados.

Mas lá,

onde quase tudo era permitido

e quase tudo se perdoava,

na idade da inocência

a espreitar sorrateira

com olhos de criança,

a mentira

eram histórias,

sonhos,

por vezes

invenções

ainda sem propósito

e aninhados entre os braços

que se abriam ao vento

sem medos

quando éramos pequenos!

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