Uma pequena lucidez

Perdera-lhe já a conta de quantas vezes a assaltara o gesto de as destruir. Mas, uma pequena lucidez ou talvez um lampejo de saudade futura, surgia-lhe nas mãos, sempre que esse ser diabólico e invejoso que se nos apodera por vezes da mente, fazendo por vontade dele e não nossa actos inconscientes, de que nos arrependemos depois mais tarde mas já sem volta a dar, para que o passado regresse ao ponto onde ainda seria possível remedia-lo. Voltava sempre a pegar nelas e relia-as, com a mesma ansiedade como se abrisse o envelope pala primeira vez, porque eram de certeza, as cartas mais lindas que alguma vez na vida recebera. E que todas as outras, as recebidas, e que guardava somente de memória lhe perdoassem a franqueza, por a sua mente doentia libertar toda a toleria interior do quotidiano ao tentar lembrar-se das palavras que respondera, em particular àquelas, porque sentia que eram como se de um tesouro de preço incalculável se tratassem.

E depois imaginava, idealizando, se também teriam guardado as dela, com a mesma delicadeza e sensibilidade e com todo o cuidado com que resguardava do tempo as que recebera. Do tempo que corrói e as poderia transformar de papel amarelecido em pó, e que o vento levaria facilmente para longe de si e dos seus dedos que as agarravam, de ambos os lados, desembrulhando-as lentamente, tentando reviver o primeiro momento na ânsia de absorver de uma só vez perdurando no bater descontrolado do coração no seu peito a emoção a arder nos cantos dos olhos. E lerem-nas assim desejava no seu íntimo que o tivessem feito às dela, não agora, atiradas talvez e esquecidas nas arrumações no sótão ou numa cave húmida e sombria, mas no exacto momento que o carteiro as levara às mãos a quem desejava que as entregasse!
Algumas de amor e outras de sincera amizade, mas todas elas sem menosprezar o seu conteúdo e o destinatário. Lembrava-se de que escrevera algumas no sentido da reprovação e outras por não ter tido coragem de dizer de olhos nos olhos, o que lhe ia na profundez da sua alma. E descobrira anos mais tarde, que a sua mãe lhe lera algumas em conversas quando se juntavam todos por altura do natal, ela, os irmãos, as cunhadas, cunhados, filhos e sobrinhos quando o irmão mais novo lhe perguntara se ainda escrevia aqueles textos lindíssimos! E a sua mãe lhe perguntar então, que fazia com aquela caixa que ainda permanecia intacta dentro de uma das arcas no seu quarto com as cartas e outros textos e, aquelas do Abel, que tinha um vício precatório de no remetente do envelope de se lhe dirigir: “à gatinha…” ou “ à pombinha”; e a mãe nunca ter achado piada pela zombaria do carteiro seu conhecido que nada dizia no seu ar sério e compenetrado, mas a fazia adivinhar! E depois, havia aquela em que tinha terminado com um dos namorados desejando-lhe que um dia conhecesse uma rapariga melhor que ela e que o fizesse muito mais feliz do que ela alguma vez seria capaz de o fazer sentir. Essa, apesar de à distância dos anos lhe parecer que acabara ainda de a escrever, e lhe doer pela dor que iria fazer-lhe sentir a ele, que lhe confessara a ela, no dia que o fora visitar ao hospital, poucos dias após ele ter tido o acidente em que o tractor se lhe virara por cima do corpo, que ao vê-la entrar a porta do corredor seria a última pessoa que esperava ver ali e todo o sofrimento lhe desaparecera e renascera dentro dele a vontade de se recuperar mais rápido até do que julgara ser possível. Porque o verde dos seus olhos eram de uma doçura que a faziam sentir-se culpada e a pior das pessoas à superfície do planeta, apesar de a primeira das vezes que tinham saído juntos ter sido ele a deixa-la uma ou mais tardes inteiras à sua espera no princípio da primavera lá na sua Vila tão verde a que o nome fazia jus. Mas não terminara o relacionamento por vingança, mas porque andava à deriva e os sentimentos dentro de si atropelavam-se sem sentido e sem um rumo definido. Sentimentos esses, que pela vida fora, mais pareciam um rafeiro enregelado à procura de conforto, e nesse domingo apanhara a camioneta e rumara à cidade, onde o colega que conhecera dias antes na escola nocturna que frequentava na altura, na perspectiva de terminar um secundário intermitente, a convidara para sair. E ela sabia que a tomariam, principalmente nas aldeias pequenas acontecia sempre assim, os primos e as primas dele como uma traidora e talvez deixassem de lhe dirigir a palavra. Mas anos mais tarde, era o seu filho mais velho um bebé de meses, uma das primas dele fora visitá-la e sentira-se perdoada. Mas, aquela dor como um aperto no peito e depois a subir na garganta como um espeto que nos dilacera, sempre que a memória dele acordava de repente sem a avisar dentro de si e que os anos ainda não tinham sabido apagar, e lhe povoava os pensamentos numa nostalgia que a percorria, magoando-a ainda com a mesma profundidade fazendo-a quase jurar que se pudesse voltar atrás talvez tivesse pensado duas vezes ou talvez não pois nem ela própria saberia assim com tanta certeza das juras que jurava em vão! Seria pela mãe lhe ter perguntado, à queima-roupa, se eles eram namorados e, por depois, do acidente, lhe terem introduzido um ferro no antebraço onde o osso se esmagara e os médicos abanando a cabeça não tinham conseguido consertar e que um dia seria ela nas palavras da mãe se acaso casassem, que teria de cuidar dele?

Quem poderia adivinhar o futuro e mudar fosse o que fosse? Os dias, os meses, os anos passam e quando se dá conta meio século na vida de uma pessoa passou. Sobrarão as recordações? Os pequenos lampejos de saudades passadas a ameaçar o sossego do futuro? É a vida que passa a passos largos e descuidados como riscas no asfalto a uma rapidez vertiginosa e sem sabermos se o que fizemos estaria certo ou errado ou se o tempo se foi perdendo em bagatelas. E depois vinham-lhe à memória os sentimentos cúmplices que uniam os seus próprios pais. E essa mulher, a sua mãe, que a vida tornara triste numa profundez enrugada que se formava no cimo da testa, mas que jurava a si mesma não lhe querer seguir o exemplo. Mas nunca se pode cuspir para o ar como muitas vezes a sua avó materna dizia e ela ainda não alcançara o que esta pretendia dizer com aquilo naquela altura ainda tão jovem… E as lágrimas solidificadas, mas que ela soubera perceber, desde tenra idade, numa espécie de dor como uma proeminência nos olhos tristes da sua mãe, sempre que no dia anterior à partida do pai – para o país que lhes dava o ganha-pão -, esta preparava a mala e o farnel que ele levaria e, a maioria das manhãs quando sentia o ranger do soalho por debaixo dos passos leves destes, para não os acordar, a ela, e aos irmãos, quando ela fingia que dormia. E nunca chegara a saber se, a respiração da irmã deitada a seu lado, era fingida no sono ou se estaria também acordada remoendo o mesmo entendimento. O pai em silêncio dava a volta pelos quartos beijando os seus cinco filhos, começando pelos mais novos e terminando no seu. Era como se um prolongamento da sua resistência a tentar controlar a respiração e libertar-se no sono tomasse conta do seu frágil corpo e fingia assim dormir para que o seu pai pudesse partir em paz e sossegado assim anos a fio.

Mas, nem ela saberia já olhar quem a olhava ainda, mesmo quando o irmão mais novo lhe dizia que ela estava uma jovem como se o tempo tivesse parado no seu corpo fragil para que alguns corações palpitassem à sua passagem! E, se naquele dia reparara nele, fora por mero acaso. Talvez porque se arrepiara assim virada em pé de frente para o balcão num dos cafés perto do seu trabalho. Como quando a mãe lhe contava aventuras de lobos que ela nunca chegara a ver de perto, mas como se os tivesse ela também visto pelos olhos jovens da sua mãe lá na aldeia onde o dialecto se confundia com o de além fronteira numa mistura de castelhano e língua mãe: “se for ele a ver-nos primeiro sentimos um arrepio e não somos capazes de o ver, ficamos cegos pelo seu olhar!”. Memórias da sua própria mãe, que tão jovem saíra da sua terra natal, quando os seus avós decidiram por insistência da sua avó materna que haviam rumores de terras no baixo minho para onde a maioria vendendo tudo se deslocavam em busca de uma vida melhor. E para não ficar sozinha já que o marido emigrara para outro país e os próprios pais precisavam da sua ajuda para cultivar as terras em trabalhos de agricultura, acedera enveredar na aventura de se estabelecer em nova terra e conhecer novos costumes e maneiras e porque nessa geração os pais ainda mandavam nos filhos, mesmo casados ou por simples obediência e nem ela saberia explicar isso muito bem quanto mais a sua própria mãe! E, talvez por isso, lhe parecia a ela que vivera a primeira infância sem abarcar aquele mundo desconhecido e intocável para além dos quatro muros que circundavam aquele imenso quintal da actual casa aonde os pais ainda vivem e que percorrera de uma ponta à outra vezes sem conta. E, as vozes que ouvia ainda em reminiscências sem ver os rostos dos que passavam pelos caminhos, transmitiam-lhe um misto, de medo e mistério inexplicável. E as poucas vezes que descera a rua até à Vila nos primeiros anos de vida, circunscritas já nos primeiros anos de escola para assistir à “doutrina” na preparação para a chamada “primeira comunhão”, pareciam-lhe agora, como se tivesse entrado numa floresta cerrada e escura com pouco ou nada para recordar! Como se as recordações escolhessem o que queriam recordar ou até se confundissem com os relatos dos outros como se fossem vivências próprias que sobrepondo-se ao tempo mas com uma coerência que a deixavam a ela mesma num pasmada e num absurdo até se processarem palpáveis e certeiras no alvo. E depois a restante família – imensa na actualidade por parte do pai – tinha permanecido na terra natal deste e por vários anos tinham sido quase desconhecidos e só por altura de um ou outro casamento de algum primo ao serem convidados a família se juntava.

E quantas vezes se sentira amada ou somente um desejo de segundos que abarcava dentro de si como se roubado a esse sentimento de quando os olhos se prendem noutros olhos e o perpetuamos nas recordações… era como se de um jogo se tratasse e o que perde já não pensa mais na derrota porque ninguém gosta de perder e parte em busca de novo jogo ou brincadeira como os raios do sol em busca de novos alvos a cintilar nos grãos do pó. Haveria seres que como ela teriam esse vício de agarrar esses sentimentos impalpáveis e intangíveis e fazê-los eternamente seus? Porque o mistério não era nenhum e quem passasse nem se apercebia que aquele olhar ou aquele sorriso que lhe destinavam nunca se esbateria definitivamente porque quem o deu oferecera-lho gratuitamente e que ela agarrara num semicerrar de olhos aprisionando-os dentro de si. Roubava-os como se à socapa. Mas somente ela sabia isso e sentia-se rainha na rua dos seus sentimentos e das vagas fragrâncias que lhe dedicavam. Custara a convencer-se disso mas eram tantas as vezes que lhe acontecia que acabou por aceitar que nunca conseguiria fugir a esse vício. Porque até haveria outros vícios muito piores e pelo menos esse não contagiava mais ninguém, ou se contagiava não era um vírus que se propagasse fisicamente. E se morresse de dor, seria somente ela, afogando-se na recordação intolerável tentando retratar num patamar da sua memória o que já não era possível de repetir-se, mas que sobrevivia e era eterno nas suas recordações. Se não conseguisse viver sem esse vício quantos olhares e sorrisos não haveria por ai à espera de serem roubados para alimentar a sua ânsia? Mas também tinha a consciência de que passaria sempre sem olhar para trás, tal como fazia na casa dos pais sempre que a mãe lhe pedia para ir buscar qualquer coisa a um dos quartos e tinha de atravessar aquele corredor de quatro janelas, onde a noite entrava imensa e medonha projectando através da luz difusa e amarela sombras de braços que se moviam atrás da sua própria sombra, como se quisessem agarra-la e leva-la para outros mundos que só de os imaginar os arrepios que a percorriam a obrigavam a correr. Por vezes pensava: e se parassem para agarrar o seu olhar ou o seu sorriso da mesma forma como ela o fazia? E jurava de antemão que nunca pararia, fugiria até onde fosse preciso até nunca conseguirem alcança-la. Era mais forte que ela, porque esse sentimento absorvia-a desde que tinha consciência dele, apesar da timidez deixava que o olhar de quem a olhava lhe entrasse dentro do seu próprio olhar. Era como se coleccionasse selos ou outra coisa qualquer. Talvez não fosse o mais certo mas que força a moveria a ser e agir assim?

E se naquele dia reparara nele, fora por mero acaso…ou melhor: se sentira o seu olhar não fora porque sentira o vício a emergir. Sentira primeiro o olhar do lobo e não dera por ele, somente se arrepiara. E recordava-se bem, ainda residente na terra que a vira nascer, entrara no café e pedindo o garoto como de costume em pé ao balcão e sabendo que estava quase a poucos segundos de ultrapassar o seu horário de entrada no trabalho da parte da tarde, ela que cumpria escrupulosamente todos os horários tanto de entrada como de saída porque como uma vez ouvira dizer a alguém: “há vida lá fora para além do meu trabalho!” e a família para ela era como se um primeiro emprego e o outro ficasse para segundo plano, mas sabendo que o primeiro também dependia do segundo. Principalmente os filhos, estavam acima de qualquer outra prioridade e o pai deles que aceitasse essa sua vontade se a quisesse acompanhar nessa caminhada de os ver crescer. E que não lhe viessem dizer que estava a sacrificar a vida própria pela deles, pois que essa forma de ver as coisas nunca seria a dela, da mesma forma que aceitava quem tivesse opinião diferente da sua, mas nada a demoveria da sua própria forma de pensar. Poderia até acenar com o rosto que teriam razão mas não na sua perspectiva, talvez na de quem assim pensava, mas não na dela. E nunca deixara de se comover por ver crianças a morrer de fome, talvez até se comoveria muito mais do que algumas pessoas que se dizem seguidoras de uma religião e a praticam. Mas isso pertence à consciência de cada um e é livre de dar opiniões mas que não fizessem delas pareceres vinculativos a que os outros devam obedecer e ela prestar vassalagem. É que ela tinha outro vício. Via de dentro de sim mesma e de dentro dos seus olhos nunca olhara pelos olhos dos outros e se porventura o tentava fazer, era só para ver pela perspectiva dos que a tentavam convencer que a verdade estava nas suas palavras e não nas dela. Aceitava prontamente e prontificava-se a estar o mais possível disponível para ouvir fosse quem fosse que lhe quisesse confessar os seus segredos ou medos mas nunca dava as suas opiniões de modo a seguirem-nas, regozijando-se de ter seguidores daquilo que era a sua consciência. E como há tanto falso profeta a protelar pelo mundo fora, se a seguiam faziam-nos de livre vontade e não porque sentia que assim o impusera. Mas se dava conta que alguém a queria manipular e tinha consciência disso, acabariam por descobrir que apesar do seu ar inocente não era um osso fácil de roer. Nunca sentira que agiria nesse casos de forma vingativa ou, a maltratar de algum modo, quem assim a tentara sufocar porque na realidade conseguia ficar na soleira dessa porta que se lhe abria de par em par a convida-la como se com pancadinhas nas costas. Talvez fosse aquele sexto sentido, de que falam que como humanos nos acompanha. Ou uma espécie de respeito incontido, quando tocamos à campainha de uma porta que não nos é familiar e, ficamos sempre do lado de fora, à espera que nos convidem, ou porque não conhecemos o que está do lado de dentro, ou porque a educação assim nos delineou. E como os exemplos que ouvia, a maioria por mero acaso, a colocavam de sobreaviso, quase inconsciente mas num processamento advertindo-a, como que se fosse consigo mesma que eles aconteciam. E nem eram situações que a deixavam perplexa. Eram situações que ouvia sentada calmamente, enquanto o comboio fazia o seu percurso levando-a num adormecimento ou até outras que se passavam bem perto do seu horário de trabalho que a faziam sentir que afinal nunca maltratara o seu próximo, pois todos os dias fazia a sua boa acção ao não calcar o espaço do seu semelhante. E para que se sinta que ela acontece é ter consciência de que nunca se fez o seu contrário. Não tinha consciência de ter feito bem ou mal, principalmente o mal. E, se havia coisa que a deixava num nervosismo interior a revoltar-se, era ouvir de certas bocas que este ou aquele tinha uma auto-estima muito elevada, quando a desse lhe parecia querer ultrapassar no limiar do inconcebível a de qualquer um! O mundo andava enlouquecido talvez há tempo demais. Ou seria ela a única louca e todos os outros seres normais? E sempre que pensava nisso ria-se baixinho dentro de si, num silêncio miudinho, como se os seus fantasmas a ouvissem e a compreendessem, mas pelo menos esses continuavam mudos e imutáveis talvez esperando uma oportunidade para se libertarem da lâmpada de Aladino para a assustar. Mas naquele dia sentira o seu olhar e arrepiara-se. E, como sempre, pensou, que seria mais acertado guarda-lo para outra altura em que pudesse realmente saborear-lhe a emoção, fugindo de encontro ao dever que a esperava sentado na secretária lá no emprego de perna entrecruzada e olhar reprovador por entre papéis e rabiscos que só ela sabia manusear, porque vinha-lhe à memória tanta situação que talvez só existisse na sua imaginação a fervilhar e que se tivesse parado um segundo que fosse, o seu coração teria aberto brechas demasiado dolorosas que oscilariam e derrubariam em ruínas todos os alicerces do seu autodomínio que sabia que tinha e muitos não imaginavam o quanto este era inabalável e poderoso, mantendo-a, apesar de toda aquela fragilidade que todos respeitavam todavia, ali serena e erguida como uma estaca.

Mas deixou que o olhar dele lhe afagasse as costas e o cabelo longo que ainda usava em moda dos anos sessenta, sem que a companhia que permanecia a seu lado sequer suspeitasse. O seu longo cabelo que apesar de muitas invejosas, isso na opinião do pai dos seus filhos, lhe dizerem que já não tinha idade para o usar assim, quando quem lhe dizia para o deixar como o usava, que era pelo conjunto todo que ainda parecia uma adolescente e talvez interiormente despertava nos outros corações femininos um misto de inveja e desespero na luta contra o tempo que lhes deixava cada vez mais e profundas marcas. Mas ela não tinha culpa se, quando passados anos, alguns, não sabiam ao certo se ela era a mesma que tinham conhecido no passado ao cruzarem-se-lhe numa rua qualquer. Não que achasse que o tempo tivesse parado, ou estivesse a ser mais complacente para consigo. Realmente o tempo não tinha parado e as brancas também afloravam já no cimo da sua cabeça como ervas daninhas e nas têmporas como as barbas do milho ásperas e espetadas e a pele nos braços e nas pernas ia ficando numa macieza macilenta que se recordava de ter sentido quando a sua avó a abraçava associando-a às pessoas mais velhas apesar de continuar com o mesmo peso dos vinte ou os trinta anos! O tempo ataca de muitas formas, todos tinham de se convencer disso. E se, aparentemente não lhes parecia que a atacava a ela, se soubessem olhar bem de perto descobririam que a atacava da mesma forma que a qualquer um. Como quando a dor se instalava dentro de si seria facílimo descortinarem nos esgares de crispação do seu rosto o quanto o tempo a tentava dobrar nas suas garras até a obrigar a sentar-se resignada e abatida sem já forças para lhe fazer frente. E então deitava-se e tentava adormecer a dor com o sono e no dia seguinte acordar com nova disposição. O que nem sempre acontecia porque acordava durante a noite várias vezes e de manhã ainda se sentia mais cansada do que se deitara, lembrando-se vagamente de a avó se queixar disso e depois a sua mãe. E depois pensava porque razão a dor teria de acompanhar a condição feminina de geração em geração se a maioria das atrocidades no mundo são cometidas pelos homens e não por elas as mulheres, pelos menos era o que demonstravam as estatísticas e apesar de serem estas em maior número. O que a levava a pensar que se em politica seria uma boa estratégia, governarem minorias. Ai estava algo, no qual nunca se tinha debruçado nem sequer a dar-lhe um minuto de atenção porque tinha francas reticências perante os governantes. Apregoavam quimeras que raramente cumpriam. Mas num universo tão complexo quem conseguiria levar as suas promessas a bom porto na totalidade? O mar é traiçoeiro e levanta-o o vento num abrir e fechar de olhos que o veleiro quase não tem tempo de içar a vela. Sem contar com os piratas que se escondem nas miragens no horizonte confundindo-se com o brilho do sol na superfície prateada da água, que quando nos damos conta já estes estão de amarras e a saltar dentro das nossas moradias tentando libertar as nossas mãos que tentam ainda agarrar-se a paredes que não têm sulcos, para lhes fugir.

As cartas, essas, mantinha-as guardadas juntamente com roupa numa das gavetas da cómoda e por ventura ainda lá estariam, assim como outras recordações insólitas que foi guardando, nem sabia bem a razão, como o comprimido que o marido lhe metera entre dedos dando-lhe a ordem: engole! Mas sem obedecer mas deitando-lhe um olhar incrédulo ficou com ele depositado na palma da mão. E ele pedindo de novo: vá lá engole… Mas desta vez olhando-o sem perceber perguntou-lhe: Porquê? Nem tenho sequer aqui água para o engolir… Então, vendo ele que não a conseguia convencer a engoli-lo, disse-lhe: senão o engoles tenta ao menos abri-lo – pois era dos revestidos em que se separam em dois se os rodarmos com as mãos em duas direcções opostas com cor vermelha de um dos lados, e do outro, amarela. Assim fazendo e com cuidado, pois esperava que o conteúdo se lhe espalhasse pelo chão, ao ficar com uma metade em cada mão, reparou que numa delas parecia ter algo lá dentro, como um minúsculo manuscrito enrolado. Retirou-o e desenrolando-o leu uma frase escrita também esta em letra quase imperceptível: se o engolisses não saberias que te amo.

No dia que decidira enfrentar o olhar que a olhara dias antes no café perdera-lhe já o sentido. Preferira entrar e olhar distraidamente e deixar-se ficar de pé como de costume e fazer de si a novidade que o deixara de ser já. Sentia que por algum motivo inconsciente os outros deixariam de ser eles os lobos para ser ela a olhá-los sem a verem.

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