O rebentar das águas

Há gente deste calibre que não sabe o mal que me faz.

A toda a hora sou abalroada,

logo eu que fugi a esses pensamentos piegas e retrógrados

quase ao desbarato roubados,

à minha serena e paciente figura,

que aparentando uma ausência desmesurada

lhes deve parecer uma cançoneta feliz.

Deixem-me em paz…

Não fomentem a minha loucura

a sorrir sempre que me falam

da minha terra quase campeã!

Mas que mal lhes terei feito eu?

Para merecer tal desmesura…

Ai as tíbias… (esse bolo a transbordar de creme e manteiga)

diz-me uma, todos os natais e Páscoas…

não importando se o creme na viagem se desfaz!

O braga, é grande e vencerá…diz-me outro e não sei porquê…

Quero eu lá saber de bola e campeões…

Eu que até sou contra todos esses estádios que me roubaram o fio à bolsa.

Apesar de já ter passado bem ao lado do tal construído na pedreira…

Fala-me outra, das “papas de serrabulho” que a minha sogra tão bem faz.

Diz-me outro que sou tão engraçada a dizer “oitenta” em vez de “oitenta”

…que para mim é a mesma coisa só porque fecho a boca como se fosse libertar um assobio!

É no médico, na escola, no trabalho e até no comboio e um dia destes até no metro será.

Mas será que se reuniram todos para me sanar?

Ou será uma espécie de contestação

para me dizerem sem convicção para o admitir:

volta para a tua terra degenerada!

Deixem-me em paz, ouviram?!…

Não me dirijam a palavra.

Não me obriguem a rebentar os diques

que me sustentam as lágrimas

ou o dilúvio desabará.

E o Tejo… esse menino tão sereno e cintilante

que brinca com as gaivotas

tais aviões de papel ou barcos multicolores

tão inocente e inspirador fervilhando aos audazes

sonetos, amores e saudades…

que poucos saberão que existe um Este

um rio no fundo da avenida com o Picoto lá no alto.

Pronto…

lá teve que acontecer.

Rebentaram as lágrimas

como rebentam as águas quando as mães o vão ser.

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