Reminiscências em viagem

O cheiro que foi perdendo, diziam-lhe os médicos, também lhe foi tirando o sabor que, por vezes tudo que comia, lhe sabia ao mesmo. Assim como uma espécie de metal.

E numa das viagens, pelo natal, de visita à família no norte, debruçada no corrimão do terraço que fazia de telhado sobre o galinheiro reparou com alguma atenção que aquela terra escura e pisada pelas patas das galinhas ainda lhe trazia o cheiro que todos estes devem ter, misturados com as fezes e os restos das couves, do milho e outros desperdícios que se vão decompondo, parecendo uma pasta compacta e de um verde-escuro. E depois ao longe, apesar do frio levemente aquecido pelo sol alto, as ramadas das copas dos pinheiros que no estio do verão ardem em fogos ateados ou espontaneamente sem mão criminosa. E era um cheiro que na inocência do mal que poderia fazer, lhe sabia bem. Assim como o cheiro da pele do filho mais velho ainda lhe trazia a convicção de que entre mil crianças recém-nascidas, saberia descobri-lo. Isso dada pelos cheiros de todos os sobrinhos que foi pegando nascidos todos depois do próprio filho e cada um deles com um cheiro de bebé mas com uma fragrância única e inconfundível: o Diogo cheirava a Diogo, o Lucas cheirava a Lucas, a Juliana cheirava a Juliana… Será este o cheiro das recordações? Ou serão elas que pelos cheiros nos levam quase de novo a tanto recanto esquecido?

Terão os tempos de tanto século atrás tido o mesmo cheiro? Ou cada época terá o seu próprio cheiro?

E cada casa, lembrava-se, dos vizinhos de ter um cheiro indefinido, mas associado. A da Ana Maria do Viana cheirava a tecidos, porque a mãe tecia mantas de retalhos. A do Manquinote cheirava a eucalipto e pinheiros, porque ficava quase no meio destes…agora nem se conseguiria ver abandonada e completamente absorvida pelo silvado. A do David ferreiro, cheirava a ferro aquecido… A da D. Judite cheirava a pó de arroz, porque sempre que a cumprimentava desprendia-se da sua pele uma espécie de farinha branca que deveria ser mesmo pó de arroz. A da professora, parecia a papel e lápis… A do Sr. Gomes cheirava a café e a sombra, porque era escura a mercearia e o café era moído manualmente e vertido em cartuchos de papel grosso e enrolado como num funil e com riscas cinzentas. A da Branca e da Gracinda do sapateiro, cheirava a cabedal, mas do verdadeiro e pomadas de engraxar. A da Lurdinhas cheirava a leite porque ela e os irmãos levavam a leiteira ao fim da tarde e vinha de lá cheia ele ainda quente e com espuma.

E a água da fonte tinha um sabor de tremoços, porque de vez enquanto alguém lá colocava sacas de serapilheira cheias deles…mas eram tão amargos e verdes quando algum por entre um rasgo no tecido se escapava e eles crianças e ainda sem o sentido de furto os levavam à boca pela novidade. E o cheiro que ela se lembrava e trazia nas roupas do fumo das lareiras e que lhe fazia lembrar os presuntos e os enchidos a defumar? O Viana, o Manquinote e a Laidinha, a D.Judite, o David ferreiro, o sapateiro, a Rorinha, a Tabaréu o Sr.Pinheiro, A Mindinha, o Sr. Gomes, a Maria Toca…

Por vezes, a mãe, ia-a colocando a par de quem já tinha morrido, uns bem outros de algum mal…e toda a aquela gente que tinha feito parte da sua infância e nessa altura não pensava que um dia desapareceriam e deixaria de lhes sentir o cheiro, mas tão atarefada que tinha andado e um simples olhar sobre o galinheiro os trouxera de novo e vivos na idade que se habituara a vê-los e que ela mesma agora tinha. E quando era a matança do porco naqueles dias frios de inverno no mês de janeiro e a mãe, quantas vezes repetira, que um dia ou ela ou a irmã teriam de segurar na tina para onde o sangue escorria…mas nunca as obrigara realmente, pois se nem o ronco do animal suportava assim pela manhã cedo quando o homem lá ia a casa processar tamanho sacrilégio. Nos dias seguintes a casa parecia ter um cheiro fétido de entranhas e carnes a curtir misturado com colorau e loureiro para encher mais tarde as tripas para os enchidos. E depois havia as laranjadas que bebia nas férias em casa dos avós e a própria casa tinha um cheiro de madeira diferente da sua a 6 km de distância da dos pais. E até a própria mercearia lá era diferente nos cheiros, da da rua dos seus pais. E se por dois ou três dias aguentava a novidade daqueles cheiros a seguir a esses, contava-os pelos dedos até que passassem o mais rápido possível, para voltar aos cheiros da casa que a vira crescer.

Hoje entendia os motivos que nos levam a não querer abandonar as nossas raízes e muitos dos emigrantes regressarem ao seu país natal. Entendia o olhar que sem se aperceber lhe trazia a casa no alto da rua da sua infância e nesse local existia agora uma espécie de rotunda…a casa da D. Judite e o estalo que levara da Rosa mulata e sem uma palavra quando esta lhe fora tocar à campainha. Porque a casa ficava num ponto estratégico e a D. Judite divertia-se sozinha e viúva a espreitar as entradas e saídas das outras casas e numa das vezes afirmara que da casa da Rosa mulata era um corridinho dos rapazes das casas vizinhas mais abaixo. Da Rosa, lembrava-se da casa a seguir à sua tanto ano desabitada e de se por à janela a espreitar quem seriam aqueles vizinhos e quem libertava gargalhadas tão estridentes e tão diferentes das que ouvira até aquela data. E a mãe passados um ou dois anos a quase proibir a ela e à irmã de não as querer de calções na rua, porque os vizinhos não achavam bem só porque as vizinhas tinham trazido lá de Angola a moda. E agora percebia que não era a mãe que as proibia mas a reprovação das beatas vizinhas.

Como estaria a Zezita? Desde a última vez que a vira já os três filhos dela deveriam estar enormes e fora ela uma arrebatadora de paixões e até uma das suas próprias paixões, esta lhe soubera roubar. Mas agora até disso sentia saudades. E engraçado é que não sentira ciúmes porque no mesmo dia outra paixão se lhe deslumbrara. Quando se é jovem é tão fácil apaixonarmo-nos. Não que com a idade isso não aconteça. Não teremos, é talvez, o sentido da oportunidade. Tentamos guardar isso para outra altura e quando damos conta já tudo adormeceu e parece tão longínquo. Andamos em guerra com o quotidiano que, o que desejamos realmente, é refastelarmo-nos no sofá e que os sonhos, se o quiserem, e sem esforço, venham de mansinho tomar conta do nosso cansaço e o levem nos seus braços como a uma criança pequena.

Por vezes um aperto no peito dava um nó cego à saudade tentando asfixia-la. Era uma dor quase insuportável porque o tempo ficava para trás, cada vez mais distante. Mas depois as imagens do passado tornavam-se nítidas como um filme e passavam pela sua vida tão fluidas e simples. As gargalhadas, eram tão reais, os sons tão próximos, as cores dos vestidos tão vivas e coloridas que as rugas das vizinhas da sua idade que revia por vezes ao fim de vários anos, é que não pareciam reais!

A sorte é que só de vez em quando a saudade ameaça e sem graça a nossa quietude e fazemos rapidamente dela a nossa inimiga mil vezes pior que a dieta para emagrecer. Erguemos barreiras invisíveis e camuflamos o nosso bem-estar a coscuvilhar a vida dos outros que não nos dizem nada sentimentalmente. Poderemos até sentir uma espécie de pena, porque somos humanos e sensíveis, mas nada que se compare ao cheiro do pó de arroz da D. Judite, mas para nos esquecermos dele tentamos imaginar o cheiro de outro pó de arroz que nunca sentimos o cheiro, o cheiro de alguma rua que nunca atravessamos, as gargalhadas nos sorrisos quietos das fotografias de desconhecidos numa revista ou num jornal.

E uma vez até tinha achado piada à pergunta indiscreta de uma colega numa repartição pública à forma rotineira e sempre por aquela ordem de um inspector abrir o jornal na página da necrologia e esta lhe perguntar porque o fazia sempre nessa ordem. Ao que este respondera que procurava a fotografia do homem da mulher de quem ele gostava. E perante tamanha evidência remeteu-se esta ao silêncio talvez a tentar descortinar quem seria a mulher de quem ele afinal gostaria! E até hoje talvez ainda esta se lembre da sua impertinência e um misto de vontade de ainda lhe perguntar se misture com o receio de algo que não quisesse realmente ouvir! E para perguntas impertinentes por vezes há respostas menos impróprias que é melhor nem sequer as ouvirmos.

Mas a Manuela era sempre tão espontânea que nem sequer a confundiriam com ingénua ou intrometida e os piropos que ouvia deveriam alimentar-lhe o ego. Até ela própria dizia que a necessidade de devorar coisas doces um dia se transformaria facilmente em diabetes. Pois sempre que um funcionário era reclassificado na carreira ela, desavergonhada regateava uns bombons e perante o olhar reprovador da chefe retorquia “mas depois sabem-lhe bem não é?” Ainda não tinha sido assim há tanto tempo e agora já ninguém regateava bombons com aquele olhar como a Manuela. Já ninguém a reprovava por lhe estar sempre a pedir boleia para a levar a ir buscar os filhos ao colégio porque o marido, tinha sempre uma reunião imprevisível à última da hora e, como até fazia o mesmo caminho, que lhe custava a ela, isso? Mas haveria noutras épocas esses sentimentos ciumentos ou invejosos? Acreditava que sim e nos seus olhos sentia um brilho vindo de dentro a tentar asfixia-la de novo, portanto o melhor seria mesmo acabar logo ali. Levantar-se, arranjar o cortinado, dar uma varridela no chão da cozinha ou até deitar-se e tentar dormir porque já não deveria ser nada cedo pelo silêncio que a noite lhe trazia do exterior e no dia seguinte dormisse ou não o despertador tocaria à mesma hora de sempre.

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