A Casa

“Dou a volta à casa toda, dou a volta à vida toda e é como se um desejo de a totalizar, a ter na mão.” Nela me revejo. Espelho de mim mesmo. Ervas em redor, da altura do meu afastamento, da dificuldade que tenho em regressar à minha vida.
Entro e o cheiro; fresco como a solidão, apaziguador como a morte. Demoro a reagir aos meus olhos, que me mostram a saudade como nunca a tinha visto. E queima. Terna imagem que rebusca o choro no mais íntimo de mim. Mas eu resisto. Resisto e caminho em direcção à escada, a mesma escada que me transportou anos e anos, e que agora me carrega mais uma vez.
O quarto; cama, mesinha de cabeceira, guarda-fatos em mogno, enorme e velho, velho como não conheço ninguém, e a mesa. Foi a primeira coisa que toquei, a mesa. Parecia acabada de limpar, não tinha o mínimo vestígio de pó. Era a sua luta contra o tempo, a luz daquele quarto. Foi nela que aprendi a escrever as letras que o professor me mostrou: primeiro o “a”, redondo, o mais redondo possível e sem sinal de abertura. O “e”, que sempre que o desenhava, imaginava-o como o movimento de um cão a dar um salto “mortal” à retaguarda. Nela perdia mais tempo que em qualquer uma das outras. O “i” era simples. Um salto e uma pintinha. O “o” fazia-o em duas vezes: primeiro a bola, ainda mais perfeita que a do “a”, depois o tracinho arredondado na parte superior. Contrariava o professor, que nos dizia: “O “o” é para se fazer sem levantar a caneta do papel.” Mas eu levantava. Levanto. O “u” era fácil: partida, primeiro salto, segundo salto e chegada. Sem pintinhas. Folhas de linhas cheias de letras. As vogais. Digo em voz alta: “As vogais”. Mas não é a mesma palavra, não tem o mesmo significado. Há palavras assim, que se perdem no tempo: “pão”, “laranjas no verão”, “lume”, “o musgo do Natal” e a “morte”.
A primeira vez que ouvi alguém falar na morte foi a minha mãe. Aqui, à porta deste quarto, entreaberta. E eu a escutar. Nessa altura, a morte era alguém que vinha por pouco tempo. Não demorava. Fazia o que tinha a fazer e ia. E dessa vez fez o que tinha a fazer ao meu pai. Sempre que recordo o pai aparecem-me aqueles olhos, os olhos com que fitou a morte. E neles ela ficou gravada, como num acidente em que o velocímetro regista a velocidade a que o carro seguia. Também a morte foi demasiado veloz para o pai. A minha mãe a chorar. Vejo-a. Sentada no cimo da escada, cabeça erguida para o tecto e as lágrimas. Mas a minha mãe era forte e, no dia seguinte, já me vestia, antes da escola, com a mesma desenvoltura com que sempre me vestia. Eu tentava descobrir a tristeza no meio daquelas enormes pestanas, mas elas pareciam estar combinadas e não me deixavam ver nada nos seus olhos. Ou então era ela que os escondia. O pai não chegou a ver as minhas letras.
Sentei-me na cadeira. Demasiado pequena. Estranho já me ter servido. Levanto-me e desvio a cortina que tapa o que a janela me quer mostrar; o meu mundo. Pequeno e simples. O mundo que me trouxe a morte e ao qual eu me entregarei. Com a morte que virá. A mesma que o meu pai encarou.

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