Abaixo assinado

Retrato de Virgílio A. P. Machado
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Os alunos, abaixo assinados, do 1.º ano dos cursos de […] desta Universidade […], onde foram admitidos, tornando assim impossível o acesso à universidade de outros candidatos, desejosos de obterem uma formação que lhes permita ascender a lugares na sociedade a que as suas capacidades intelectuais lhes dão direito, mas a quem a humildade das suas origens lhes continua a sonegar, vêm, por este meio, manifestar-se contra as medidas repressivas, de que têm sido alvo, da parte do Prof. Virgílio Machado.

O Prof. Virgílio Machado chegou já ao ponto de ameaçar impedir-nos de cometer fraudes nos testes, que somos forçados a ter que nos submeter, para termos aproveitamento. Impede-nos, assim, de nos iniciarmos numa prática que tencionamos aperfeiçoar durante o nosso curso nesta universidade, para, depois, podermos exercer, com toda a perícia, na nossa vida profissional, e que é a de actuarmos, o mais possível, desonestamente, tornando a fraude, o suborno e a corrupção generalizada, parte do nosso dia-a-dia. Procuraremos, assim, amassar fortunas, não como fruto do nosso trabalho e do desenvolvimento do bem-estar geral, aproveitando as oportunidades que a vida nos ofereça, mas de processos que permitam apropriarmo-nos daquilo que não nos pertence e de técnicas de dissimulação que construam as nossas riquezas à custa da miséria dos outros.

A fraude nos testes é, além do mais, um processo que nos permite manter o subdesenvolvimento das nossas faculdades intelectuais. Não queremos correr o risco de nos habituarmos a responder a questões que nos são postas, analisando-as à luz dos nossos conhecimentos, dando a resposta que acreditamos ser a mais verosímil e lógica. Também não queremos ser obrigados a ter a franqueza de admitir que não sabemos. Queremos, antes pelo contrário, mostrar que temos conhecimentos que não possuímos. Faremos assim, na universidade, aquilo que esperamos vir a fazer pela vida fora, e que é, dar a perceber, aos nossos empregadores e aos nossos subordinados, que somos muito mais sabedores do que realmente somos, criando, assim, não uma relação de respeito mútuo, mas almejando nós a sermos venerados como génios intelectuais. Para esse fim, achamos mais próprio aproveitarmos e apropriarmo-nos do trabalho dos outros, dando, às questões, respostas que são deles, que não sabemos, nem percebemos, mas que subscrevemos como se fossem nossas.

O Prof. Virgílio Machado exige, também, que sejamos pontuais às aulas e não se coíbe de assinalar as vezes que não comparecemos ou em que chegamos atrasados. Ora nós somos, em primeiro lugar, contra o regime de faltas. Não porque ele seja desnecessário, por só, eventualmente, faltarmos por motivo de força maior e, portanto, estarmos sempre dentro da tolerância do número de faltas que a universidade estabeleceu, mas porque achamos que as faltas ficam a atestar o nosso desinteresse em participar na vida académica. As faltas obrigam-nos a fazer o sacrifício de frequentar as aulas, de conviver com os colegas e professores. Nas aulas temos que ouvir falar de assuntos em que não estamos minimamente interessados. Nós não queremos saber nada do que se passa nas aulas. Queremos é acabar o curso! Achamos que não temos qualquer contributo a dar nas aulas. O estado de embrutecimento intelectual em que nos encontramos, não nos permite participar ou acompanhar a discussão de qualquer assunto dentro do âmbito da disciplina, pertinente para a nossa formação. Não nos sentimos capazes de dirigir qualquer questão ao professor, porque temos receio de cair no ridículo de perguntar qualquer coisa que possa interessar aos outros ou de elucidar dúvidas que também existam no espírito dos colegas, mas que estes não sejam capazes de formular, ou pedir um esclarecimento que, na verdade, o professor devia ter dado, mas que, eventualmente, se tenha esquecido de dar.

Temos, também, o direito de chegarmos atrasados, quando muito bem entendermos e o tempo que nos aprouver. Não queremos deixar de, com os nossos atrasos, contribuir para que esta nossa terra continue a ser um país atrasado. Somos atrasados e assim queremos continuar a ser. Pela nossa vida fora, queremos continuar a não respeitar quaisquer horários ou compromissos. No nosso futuro emprego, tencionamos, aliás, iniciar o trabalho sempre fora de horas, dando, assim, o exemplo a todos os nossos subordinados e ao operariado em geral. Não tencionamos, nunca, respeitar horas marcadas para encontros, reuniões, negócios ou quaisquer actividades profissionais ou privadas, contribuindo, assim, para grandes prejuízos, para todos, em tempo perdido, esperas inúteis e evitáveis. Esperamos, assim, ter um papel activo na manutenção do estado de confusão generalizada no nosso país, mantendo a sua imagem e características de ineficiência, desorganização e desídia.

Além do mais, o Prof. Virgílio Machado pretende que nos mantenhamos em silêncio nas aulas, quando ele se nos dirige ou um colega faz qualquer intervenção. Obriga-nos, assim, a dar provas de uma educação que não possuímos, a um respeito pelos outros que não temos. Achamos que, nas aulas, devemos poder falar do que muito bem entendermos, uns com os outros, fazendo a algazarra necessária para nos fazermos ouvir no meio da confusão geral, tal qual um grupo de ébrios numa taberna. É esse ambiente que achamos apropriado para as aulas na universidade. Outro processo não há, aliás, de impedir que aqueles que estão interessados possam acompanhar as aulas, desmotivando-os de fazerem um estudo sério e incentivando-os a aderirem à mediocridade geral. Queremos instalar nas nossas aulas o modelo de ambiente de trabalho e de sociedade que idealizamos e que é aquele em que reina a desordem completa, em que o desrespeito mútuo é total, a actividade intelectual é suprimida e se segue a via da completa irresponsabilidade e alienação.

Assim, e resumindo, porque o Prof. Virgílio Machado insiste em que nós temos que estudar, desenvolver qualidades de trabalho, de integridade pessoal e consciência profissional para as quais não estamos vocacionados, nem é para isso que estamos cá, pedimos a sua imediata substituição por outro que nos dê uma boa nota no fim do ano e nos chateie o menos possível.

[1981?]

Opinião de

Comentários

Está bem achado. Mas não

Está bem achado. Mas não te surpreendas se a direcção lhes der razão…

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