Bolsas: uma aventura do Ensino Superior

Retrato de Sérgio Neves
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A «aventura» pela nova política de atribuição de bolsas de estudo começou oficialmente no Verão. A crise em que Portugal entrou levou o Governo a tomar medidas severas de austeridade, entre elas um maior controlo na atribuição de benefícios fiscais, que naturalmente afectou também o Ensino Superior. Os estudantes que já faziam parte do Ensino Superior, e que se haviam candidatado (ou re-candidatado) em Julho, foram então notificados que teriam de se inscrever também na DGES (Direcção Geral do Ensino Superior), serviço gerido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Instalou-se a confusão. Isto porque os serviços de acção social onde se haviam inscrito (e.g. SASUL – Serviços de Acção Social da Universidade de Lisboa) já haviam pedido imensa informação, e agora surgia uma outra organização pedindo a mesma informação, e ainda mais, e mais complexa e difícil de recolher; porque aparentemente a comunicação entre esta e as outras organizações se restringia a certos e determinados documentos – não todos! -, e os estudantes se perderam entre as informações que já haviam prestado anteriormente e as que ainda precisavam de prestar; porque se instalaram prazos demasiado curtos, demasiado de repente; porque a estratégia de comunicação dos novos requisitos falhou, e os processos propostos na Internet eram demasiado complexos.

Por todas estas e mais algumas razões, foram muitos os estudantes que se perderam por entre as complicações, e não conseguiram uma candidatura válida, a tempo, e com todos os documentos entregues. Entre eles, estudantes que de facto necessitam de bolsa para poderem continuar a sua educação – estudantes que se vêm obrigados a arranjar encargos extra, e dividir assim a sua concentração, para suportarem propinas e materiais que de resto não deviam ter de suportar; ou mesmo estudantes que desistem dos seus postos académicos, por não terem meio de os pagar.

Entretanto, e para agravar a situação, os novos alunos (vulgo caloiros) iniciaram as suas candidaturas a benefícios fiscais em Setembro. Por esta altura, e com tantas confusões, é óbvio que o Ministério não havia conseguido uma análise completa do corpo de candidatos que realmente se conseguira inscrever. Mais problemas teve com novas (ou as mesmas) confusões com os caloiros. Com a agravante de ter mais gente inscrita.

Estamos em Novembro, e segundo o que a imprensa veicula, os 44 mil estudantes do Ensino Superior que de facto se conseguiram candidatar a benefícios fiscais, estão a receber bolsas provisórias, que não chegam aos 100 euros. Que para um estudante a pagar alojamento, transportes, refeições e/ou materiais, mesmo que a propina seja congelada até à decisão final da organização social, pode ser mesmo muito pouco. E até à passada terça-feira, altura em que o Ministro Mariano Gago anunciou a revogação desta decisão, os estudantes que não fossem aceites teriam de devolver os montantes provisórios depositados nas suas contas.

É por todas estas complicações e impasses que os estudantes do Ensino Superior se têm vindo a juntar cada vez mais em protestos e manifestações, contra o seu Ministério, e contra o seu Governo. É por medidas tomadas «em cima do joelho» que se andam a cortar as asas daqueles que seriam e tentam ser o futuro deste país. E é por tudo isto que um dia, mais próximo que longínquo, Maio de '68 se repetirá, desta feita em Português.

Comentários

Re: Bolsas: uma aventura do Ensino Superior

Muito bem Bisnagas, tazes a falar como deve de ser. E quanto a “um dia, mais próximo que longínquo, Maio de '68 se repetirá, desta feita em Português”, espero bem que sim!!! Que me desculpem os mais sensíveis, mas o que falta aos estudantes de hoje é a coragem para aguentar umas pauladas pelos ideais que defendem. As manifestações estudantis ganharam um lugar tão banal na nossa sociedade que já ninguém acredita nos seus pressupostos. Não quero com isto fazer um apelo à violência, longe disso, mas sim um apelo a manifestações diferentes, mais radicais, ainda que para isso tenhamos que pagar com sacrifícios. Fazer uma caminhada de trás para a frente, de braços no ar e a gritar os mesmos ditos de sempre, já não resulta. São precisas atitudes mais dramáticas (infelizmente).

Re: Bolsas: uma aventura do Ensino Superior

e que dizer daqueles que estão fora do país a fazer erasmus, (bolseiros supostamente!), e que tiveram que recandidatar-se? é uma dor de cabeça: estando fora do país as possibilidades de enfrentar a situação de forma directa e activa são reduzidas a e-mails, muitas vezes ignorados.

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