Dura praxis, Sed praxis

Retrato de André Moz Caldas
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No dealbar de cada novo ano lectivo recupera-se a discussão sobre a praxe.

Este tema apaixona a academia, muito em particular no seu sector estudantil, em torno de dois modos extremos de ver a praxe. Os apoiantes da tradição académica consideram a praxe como ritual iniciático, necessário à boa integração dos universitários. Os seus detractores, como atentado à dignidade humana.

A praxe não é nem uma coisa nem outra. É um conjunto de iniciativas burlescas, nalguns casos com fortes semelhanças aos jogos tradicionais e que cumpre, de facto, um fim de integração do jovem estudante na comunidade universitária e do estudante deslocado na cidade. A praxe inteligente não atenta, para além de jocandi causa, contra a dignidade de quem nela participa. Todos são livres de recusar a praxe. Essa liberdade é, aliás, fundamental à boa integração.

O ponto de vista que reveste a praxe de um carácter opressor por dela emanar uma convicção de obrigatoriedade é perigosa. Essa convicção qualificá-la-ia de costume e fá-la-ia vigorar no ordenamento jurídico português, a par da lei, impedindo porventura a aplicação de legislação punitiva dos excessos ocorridos durante as práticas praxísticas. De facto o excesso sucede e deve ser punido nos termos gerais de direito. Não é necessário haver legislação especial para o crime que ocorre na Universidade ou durante a praxe. O que é crime é para ser punido.

A praxe ocorrerá sempre que a colectividade a dinamizar. Essa dimensão democrática da praxe é também salutar. Proibir a praxe, por ser praxe, seria — isso sim! — opressão. Por outro lado, a praxe não precisa de defesa. Acontecerá enquanto se quiser que aconteça. No momento em que não conseguir vingar, cessará.

Às coisas deve dar-se a importância que têm. A importância da praxe é residual. Não devia, de facto apaixonar.

Se sou a favor ou contra a praxe? Eu: Não Sabe/Não Responde!

Sobre o autor da opinião: 

André Moz Caldas

É presidente da Direcção Geral da Associação Académica da Universidade de Lisboa e membro do Conselho Geral da Universidade de Lisboa

André Moz Caldas foi presidente da Associação Académica de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa e representante dos estudantes na Assembleia Estatutária da Universidade de Lisboa.

É licenciado em Medicina Dentária e, actualmente, estuda Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

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Comentários

Tens obviamente um discurso

Tens obviamente um discurso de defesa da praxe e não consegues nem de longe nem de perto tomar o discurso de quem se lhe opõe, apesar de pretensamente o quereres fazer… Aliás o título diz tudo! És claramente favorável à praxe. Nem se percebe porque queres tentar esconder isso com a tua última frase (para fingir idoneidade?), mas enfim… Se ser anti-praxe parece extremista é porque os valores que se perdem na praxe são demasiado essenciais (liberdade, igualdade) apesar de serem papagueados por quem a pratica. Mas, infelizmente, já estamos habituados a isso: os EUA e Israel invadem países em “auto-defesa”, para “espalhar a democracia” ou acabar com o “terror”; fazem milhares de vítimas mortais, conduzem milhões ao exílio e à fome e ocupam vastos territórios com recursos essenciais às suas economias. Portanto, já conhecemos os eufemismos e as supostas pretensões de moral. Na praxe isso também acontece. Tratam os caloiros todos por igual, a eles mesmo é que não pois são “superiores” e os superirores devem ser tratados com um respeito diferente daquele com que são tratados os caloiros (a uns não se pode olhar nos olhos aos outros grita-se); são livres de aderir ou não à praxe, mas os novos alunos são perseguidos e chateados constantemente para fazerem isto e aquilo dizendo-lhes que se não aderirem não se integrarão na faculdade, não receberão apontamentos, nem conhecerão os seus colegas – mentiras evidentemente!

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