Sobre o RJIES e as associações de estudantes
Há já quase uma década que as movimentações no sector do ensino superior apontavam para a emergência de um novo modelo de instituição e do seu governo, mais centralizado e profissionalizado. Após a aprovação do RJIES e a desestabilização que este provoca na vida das instituições (as que queiram realmente mudar alguma coisa, pelo menos) é evidente que as relações entre estudantes e instituição vão mudar de natureza. Fontes de «feed-back» sobre o desempenho de professores e serviços e sobre a empregabilidade das suas formações, os estudantes serão crescentemente tratados como consumidores individuais, reconduzidos ao papel do estudante que estuda (e se preocupa, quanto muito com o seu proprio curso e o seu próprio emprego) e menos ao papel de cidadão que intervém na comunidade que a universidade deveria constituir, enquanto as esferas da decisão se deslocam ainda para centros mais reservados e distantes. Esperam-se ainda integrações de escolas, consórcios, fundações ou um aprofundamento da autonomia dos departamentos e todo o tipo de associação livre entre estes, que podem lançar uma crise (eventualmente positiva) sobre as velhas identidades.
Isso representa, no imediato, um conjunto de desafios para o associativismo estudantil. Por um lado, o desafio da sua manutenção como representante dos interesses dos estudantes, quando as opiniões individuais destes vão ser reportados directamente à instituição e quando se espera que as identidades criadas à volta de escolas se esboroe face à flexibilidade curricular, à interdisciplinariedade e a estruturas de organização mais transversais. Por outro lado, o desafio sobre a relevância relativa e o peso sobre os processos de decisão que as associações estudantis de escola (em instituições com múltiplas escolas) podem ter junto dos decisores que definem a estratégia da universidade, numa fase em que se exige o concerto das áreas científicas em torno de estratégias comuns e visões abrangentes e os órgãos de governo se fecham à participação estudantil. E finalmente, o desafio sobre a capacidade de manter uma «representação de proximidade» quotidiana do estudante conjugada com uma visão global de instituição e a recusa bem-sucedida do conceito de estudante-cliente.
Numa fase em que se procura ultrapassar a fragmentação, a aposta das associações na conservação das suas estruturas como as conheceram representará a sua profunda irrelevância já no futuro próximo. Se os interlocutores privilegiados não estão mais ao nível das escolas e os estudantes perdem o peso que tinham nos órgãos centrais, é preciso que as associações procurem modos de organização que as mantenham ao nível dos novos interlocutores principais. Parece inevitável uma recomposição institucional entre as próprias estruturas dos estudantes. Mas também de atitude e ligação: vai haver menos espaço ao voluntarismo e é urgente a profissionalização das estruturas, a requalificação dos dirigentes e o investimento na qualidade e sustentabilidade do seu posicionamento político.
Os elementos centrais para este esforço de revalorização e reenquadramento das associações são o reforço do conhecimento da realidade circundada (fundada em dados e números e não baseadas num romantismo militante), uma participação muito activa e instruída nos processos de avaliação e nos sistemas internos da garantia da qualidade e uma crescente articulação com o movimento estudantil europeu, espaço em que as decisões sobre o sector do ensino superior são hoje em dia preparadas, discutidas e testadas. É sobretudo ao nível institucional e na ligação europeia que se situam os desafios e exige a iniciativa, sob pena de as associações serem arrastadas para uma irrelevância confrangedora. Ao nível nacional, as estruturas dispõem de espaços de coordenação, cujo sucesso depende evidentemente das capacidades criadas na base.





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