Pode um ranking mudar o ensino superior europeu?

Face ao domínio das universidades dos Estados Unidos nos principais rankings mundiais de prestígio, a Europa decidiu reagir. Em 2011, vai surgir uma nova classificação, cuja iniciativa partiu da Comissão Europeia. No entanto, o processo não é pacífico e os críticos mais ferozes consideram que ela pode alterar para sempre a matriz do ensino superior no Velho Continente e trazer consequências nefastas para Portugal

O mundo é cada vez mais global e as instituições de ensino superior não fogem à regra. Nos últimos anos, o número de jovens que escolhe uma universidade estrangeira para prosseguir os estudos tem aumentado de uma forma exponencial, de tal forma que já se pode falar num mercado internacional de estudantes. As mentes mais brilhantes acabam por escolher o seu destino com base em marcas de prestígio, e é aqui que entram em cena os rankings, que servem de orientação a muitos candidatos. Apesar de existirem dezenas de classificações internacionais, há duas que se distinguem e funcionam como referencial: o Times Higher Education World University Rankings, do Reino Unido, e o Shanghai Jiao Tong University Academic Ranking of World Universities, produzido na China. Entre eles, há diferenças (o ranking britânico atribui uma importância muito grande à opinião dos pares), mas também uma semelhança fundamental: as instituições de língua inglesa levam uma grande vantagem e os Estados Unidos são dominantes. No ranking do Times Higher Education temos de chegar à posição número 17 para encontrar uma universidade fora dos Estados Unidos e do Reino Unido e ela é… australiana. No estudo da universidade chinesa, passa-se algo semelhante, já que temos de percorrer a lista até vigésima posição para ler o nome da Universidade de Tóquio. No Academic Ranking of World Universities, o domínio norte-americano é absolutamente avassalador, com 17 universidades entre as 20 primeiras.

Estes dados preocupam, obviamente, os políticos do Velho Continente, que é deixado para trás, apesar da enorme tradição cultural e científica. A situação tornou- se ainda mais premente depois de o Processo de Bolonha ter criado um espaço europeu de ensino superior, com 46 países aderentes. Por isso, a Comissão Europeia lançou um concurso para a produção de um novo ranking, vencido em Junho de 2009 pelo consórcio CHERPA, que agrupa instituições alemãs, holandesas, belgas e francesas. Actualmente a ser testada em 150 instituições das áreas da engenharia e economia, esta classificação deve ver a luz do dia em meados de 2011. A proposta do consórcio releva a necessidade de se tomar em consideração os contextos linguísticos, culturais e históricos dos sistemas educacionais, comparando apenas aquilo que é comparável. Ou seja, serão criados vários rankings, dedicados a diferentes áreas de ensino e a aspectos particulares (como, por exemplo, a internacionalização). Qual será a forma final de tudo isto? Ainda pouco se sabe, mas a recolha de dados será global, com um enfoque, fora da Europa, na América do Norte, Ásia e Austrália.

Chegado a este ponto, o leitor da Aula Magna deve estar a fazer as seguintes perguntas: o que é que isto tem a ver comigo e o que é que pode mudar? A resposta não é linear e desde já assumimos que também não nos é possível responder à questão do título. No entanto, fomos à procura de respostas e deparamo-nos com cenários quase catastrofistas de um lado e dúvidas sobre a própria conclusão do processo, por outro. No fundo, abordar este tema ainda envolve um pouco de futurologia e a navegação por areias movediças. Por isso, ouvimos recusas da parte de algumas instituições, que preferem não se pronunciar sobre o tema. Uma delas veio do CRUP (Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas), que, amavelmente, nos remeteu para entrevistas recentes do seu presidente, António Rendas, reitor da Universidade Nova de Lisboa. A 9 de Março, dia da tomada de posse, declarava ao Público que o assunto ainda estava numa «fase de discussão». «Todas as instituições têm essa informação, o que está em causa é arranjar um leque de indicadores que possa permitir ver que as universidades não são todas iguais», declarou.

As divergências

A ausência de um consenso europeu é facilmente detectável pela observação da declaração conjunta dos ministros europeus responsáveis pelo ensino superior no espaço de Bolonha. Em 2009, ainda havia uma ténue referência a «ferramentas multidisciplinares para a transparência». Em 2010, a declaração foi omissa. Um dos principais receios é a criação de um fosso entre instituições de primeira e de segunda, e Portugal pode estar numa situação particularmente frágil, em que perderá mais facilmente alguns dos seus «crânios», em direcção ao Centro e Norte da Europa. «Há um risco grande. Vejamos uma situação limite: sou um estudante de Lisboa e tenho o mesmo mestrado no Porto e em Praga. Lá, não gasto mais dinheiro do que em Portugal, tenho uma experiência internacional e maior prestígio, numa instituição melhor posicionada no ranking. Tudo isto tem de ser gerido com muito cuidado e racionalidade», avança Bruno Carapinha, que deixou em Março o cargo de presidente do Registo Europeu da Garantia da Qualidade (EQAR). O organismo – que acredita as agências que avaliam os sistemas de ensino superior em cada país – já se pronunciou sobre a criação do ranking europeu, chamando a atenção da Comissão Europeia para o seu carácter «redutor». «Acreditamos que os vários parceiros devem discutir os critérios, para que um organismo externo não venha dizer que é preciso rectificar os índices B e C. Isso seria um retrocesso no sistema de garantia de qualidade de ensino que tem vindo a ser criado». No fundo, esta será a visão mais catastrofista, que tem o seu reverso nos responsáveis que acreditam que novos nichos podem surgir para as instituições nacionais. António Rendas, na entrevista já citada, coloca-se desse lado: «O objectivo é perceber o leque da oferta do ensino superior no espaço europeu e que as instituições são diferentes umas das outras. Essa é uma iniciativa que tem de ser aceite. É importante que Portugal não tenha uma atitude de suspeita».

Porém, os critérios que presidem à ordenação – necessariamente subjectivos, mas nem sempre percepcionados dessa forma – são um grande alvo de críticas. André Moz Caldas, presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa (AAUL), discorre sobre estas «incongruências»: «O que é qualidade? Quais são os rankings diferenciadores? O sucesso do ranking de Xangai baseia-se no facto de reproduzir aquela que é a percepção universal da qualidade de ensino, ou seja, transforma uma ideia pré-concebida em algo mensurável. A Universidade de Lisboa é a única portuguesa que aparece no ranking, devido a um Prémio Nobel atribuído em 1949. Que eu saiba, o Professor Egas Moniz já não lecciona em nenhuma universidade portuguesa há alguns anos. Temos de tentar encontrar instrumentos que não sejam fáceis de iludir». Para os politécnicos, e tendo em conta a importância que será dada aos números relacionados com a investigação, a machadada poderá ser violenta.

Do lado das associações académicas, é fácil perceber o sentimento de suspeita face ao processo. Rui Carvalho, vice-presidente da Associação Académica de Coimbra, não dá ainda o processo como definitivo: «Não temos bases sólidas que nos permitam dizer que isto será uma realidade dentro de dois anos. Se tivéssemos essa ideia, já estaríamos a agir politicamente para que isso não acontecesse. A ser levado a cabo, não é consensual, até porque a palavra ‘ranking’ não existe, quer no Bologna Follow-up Group (estrutura de acompanhamento permanente e de desenvolvimento do Processo de Bolonha), quer nas declarações dos ministros europeus. Os rankings podem trazer implicações nos planos estratégicos das instituições e nas políticas pedagógicas e científicas». O dirigente associativo põe-se ao lado da ESU (Associação de Estudantes Europeus), que emitiu, em 2009, uma declaração rejeitando os rankings – uma «ameaça à dimensão social das insituições» – e exortando os ministros do espaço de Bolonha a trabalhar na qualidade dos sistemas de ensino. No entanto, Bruno Carapinha toma esta iniciativa como «imparável» – «a Comissão Europeia avançou, e os governos não pararam o processo» – e pensa que as universidades que se mantiverem «passivas» terão forçosamente «consequências». Em Portugal, como poderá ser? «Não tenho a minha dúvida de que as políticas vão ser orientadas para os critérios definidos. Temos uma tradição nesse sentido: sempre que qualquer coisa permita fazer evoluir uma estatística, aposta-se nisso, mesmo que não corresponda a algo de relevante. Os rankings têm benefícios escassos e riscos claramente superiores», observa Moz Caldas.

A tecnologia no topo?

Entre esses riscos está a perda de identidade dos sistemas de ensino nacionais, como faz questão de sublinhar Rui Carvalho. «Somos a favor da produção de conhecimento, independentemente da repercussão económica imediata. É essa a tradição europeia. Desde 2005 que, em Portugal, assistimos a uma enorme pressão do governo no sentido de privilegiar as áreas científica e tecnológica, o que se pode verificar, por exemplo, nos concursos de bolsas de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A necessidade de ter mais receitas próprias e vender patentes aprofunda ainda mais este fenómeno. O ranking europeu deverá valorizar prioritariamente estes saberes e pode ser a machadada final para os outros». Bruno Carapinha fala em «hierarquização vertical» de universidades quando aborda os rankings e não tem dúvidas do rumo apontado: «isto vai ser uma pressão para as instituições se organizarem mais como empresas. As universidades são o sector menos receptivo a uma organização empresarial e vai querer incentivar-se a competição por recursos e pessoas. E para isso é preciso um mercado». A nível europeu e nacional, pode gerar-se a tendência para a concentração do investimento num número reduzido de instituições de referência. Em consequência, estas instituições sentir-se-ão tentadas a acolher apenas os alunos excepcionais. Ou seja, estaria em causa um fenómeno de elitização. A procura de recursos privados e a subida de propinas são outras consequências possíveis neste cenário. «A concorrência não será apenas dentro da Europa, mas igualmente com as universidades asiáticas, por exemplo. O lençol é curto e temo que acabe por destapar em algum lado ou exigir uma maior contribuição financeira dos estudantes», acrescenta.

Em Aveiro, porém, a mais do que provável chegada dos rankings não perturba a equipa reitoral. «É mais um facto, não vejo muita novidade», salienta José Fernando Mendes, vice-reitor responsável pela internacionalização na universidade local. «Parece-me importante que haja um ranking europeu, não há que ter medo. Penso que todas as universidades do país desempenham um papel importante em certas áreas. Não estou a ver o governo em favorecer umas em detrimento de outras. Nós já fazemos auto-avaliação há muito tempo, e isso vai dar-nos mais dados», acrescentou. No entanto, o vice-reitor salienta que «há que saber ler» os dados e comparar apenas o comparável. «É como no ranking das escolas secundárias: não se pode pôr lado a lado um colégio privado que leva 30 ou 40 alunos a exame, seleccionando os melhores, e uma escola secundária que propõe 1.000, sem selecção». Aliás, mesmo os cépticos vêem méritos nesta seriação. «Pode ser um exercício até muito importante, porque sem fazer comparações teremos sempre universidades a dizer que são as melhores do mundo. Assim, terão uma oportunidade para tomar medidas. Mas a tendência será para que as universidades bem classificadas usem a primeira boa notícia como marketing e para as outras porem em causa os critérios. Os líderes e o governo têm de aprender a lidar com os números», aponta Bruno Carapinha. Seja como for, a discussão acerca dos rankings está no início e muita água ainda irá correr debaixo das pontes.

Declarações de José Fernando Mendes sobre os rankings do ensino superior

Parece-me importante que haja um ranking europeu, não há que ter medo. Penso que todas as universidades do país desempenham um papel importante em certas áreas. Não estou a ver o governo a favorecer umas em detrimento de outras. Nós já fazemos auto-avaliação há muito tempo, e isso vai dar-nos mais dados.

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Declarações de Rui Carvalho sobre os rankings do ensino superior

Somos a favor da produção de conhecimento, independentemente da repercussão económica imediata. É essa a tradição europeia. Mas, desde 2005 que, em Portugal, assistimos a uma enorme pressão do governo no sentido de privilegiar as áreas científica e tecnológica, o que se pode verificar, por exemplo, nos concursos de bolsas de doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

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Declarações de Bruno Carapinha sobre os rankings do ensino superior

Já fui a favor de abolir todos os rankings. Agora, acho que deve haver muitos, para se perceber que há projectos educativos distintos, mas não piores ou melhores. Só que tudo o que vem da Comissão Europeia tem um peso tremendo. Vemos isso quando os políticos nacionais esgrimem números europeus como se fossem verdades absolutas. O peso de um ranking pago, feio e anunciado pela Comissão será brutal.

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